Hoje vai ser noite de tempestade.

segunda-feira, maio 28, 2012

Estava a usar o vestido azul marinho naquela noite, tinha tanto na imensidão de tecido cor de mar como por entre os meus cabelos, laçinhos de seda brancos que a minha avó me fez. As meias, que também elas eram brancas, desciam-me pelas pernas de cinco anos arrepiadas pelo frio. O crepusculo estava a acabar, e como pequena que era, entretinha-me a ver como as cores do céu mudavam, tal e qual artista que pinta as suas emoções. 
Os avó ainda estavam a jantar, e a tirar as grainhas das uvas, quando eu as comi numa dentada. No terraço, maravilhada e encantada, espero que o avô me traga o chá de limonete e alfazema na caneca de barro. Mal lhe oiço os passos lentos e próximos, viro-me e coloco a mão sobre o queixo. «Como acha que vai ser o próximo dia senhor avô?» O meu avô larga uma gargalhada rouca no ar, pegando em mim e rodopiando-me no terraço, deixando-me ficar no colo dele, enquanto visualizamos toda a escuridão da aldeia. Depois que as gargalhadas se afastam no vento, ele acrescenta apontando: 
- Estás a ver aqueles pirilampos lá ao fundo? - Aceno com a cabeça. - Só os consegues ver se estiver escuro não é?
- Sim, mas... amanhã, como vai estar amanhã o dia? Posso ir colher malmequeres com a avó e brincar com o Afonso? Eu disse que sim... Vai estar Sol não vai? Amanhã não quero pirilampos.
- Pequerrucha - acrescenta o meu avô sempre com o tom mais terno que existe, fazendo com que os seus olhos verdes brilhem mais - nem sempre o Sol vem. Mas quando ele não vier, podes sempre fazer colares de massa e brincar com o Afonso na cozinha. Fazemos uns queques de laranja todos juntos, que tal?
- Oh... Tenho medo do escuro. Não quero!
Abraço-me ao meu avô, e com as mãos ainda pequeninas tento chegar ao céu. «O que estás a fazer?» pergunta-me o meu avô uma e outra vez, mas eu persisto na minha luta por alcançar o céu, tentanto trepar pelo colo do meu avô até ao telhado. Até que, quando vejo que não chego, com os olhos molhados de lágrimas, replico:
- Avô, ajuda-me... Diz à lua para vir dormir comigo, que eu sou pequenina, ainda tenho medo do escuro e não quero mais tempestades. É que agora, nem o bicho papão fica comigo e faz-me companhia à noite. Anda vô, ajuda-me que eu tenho medo.

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1 comentários

  1. há dias em que também tenho medo, do escuro. e eu não queria nada, mas acho que também o vou ter nos próximos dias... a lua vai abraçar-te...e eu também. se ficarmos as duas nesse abraço, o medo vai-se, está bem? :)

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