Please let the kindness of forgetting set me free.

terça-feira, maio 22, 2012



No outro dia, estava eu a ir para a faculdade, e atravessaste-te no meu caminho. Mesmo ao meu lado, um bocadinho à frente tu estavas lá. Apareceste num ápice, no exacto momento em que a música que ouvia no máximo nos phones atinge o seu pico de adrenalina. E ainda não sei se foi por chegar ao ponto da música em que me arrepio sempre, ou se foi por te ver, mas pela primeira vez (desde tanto tempo que já passou) os meus olhos voltaram a inundar-se de lágrimas por ti. 
 Já não me lembrava muito bem como me devia comportar nestas situações. Como é que eu eu controlo mesmo este bocado de saudades que me invade a alma e trespassa o coração? Como é que era mesmo? Já não te via há tanto tempo, já não chorava há tanto tempo... E de repente, tu estavas ali, de pólo cinzento (como sempre) e com a tua boina habitual. Do mesmo jeito inclinado, e com os mesmos olhares doces e longínquos de tudo. Mas será que me viste? Viste como cresci? Reparaste que já não tenho rastas? Que emagreci? Viste, avô? Viste que tão por tua causa eu cresci? Viste que a tua menina mais nova, agora está longe de casa e contínua a precisar de ti (se não mais)? Oxalá me pudesses ver, como eu te vi. Oxalá pudesses continuar a ver-me no mesmo local que nos acompanhou durante anos. 
 Mas se isso não continua, deixa-me dizer-te que a maneira como o meu coração te viu, continua a ser igual. Vi-te da mesma maneira que vi sempre; com o maior dos carinhos e a mais louca saudade. Reparei na luminosidade da tua pele, mesmo antes de fazer a curva que me ligou a ti, e ouvi a tua voz rouca mesmo antes de falares com a senhora que estava contigo. Quem era ela, avô? Foi por ela que nos trocaste? É ela a sabia morte? Foi ela que te tomou de mim? Parecia tratar-te com tanto carinho... Tens uma cadeira de rodas nova, reparei também, foi ela que te deu? Gostava mais da outra, já a sabia manusear melhor. Esta não parece tão impotente, não te faz tão rei do meu reino de princesa, embora o sejas sempre. Será que com esta nova consegues retomar o tempo atrás? Consegues recuar ao tempo em que te via todos os dias, em que todos os dias podia dar-te um beijinho nessas bochechas, e brincar com as tuas mãos? Consegues, meu amor? Diz-me que sim, porque, se eu te consigo ver, também tu consegues fazer uma proeza impossível também. 
 Gostei de te ver, nos segundos que pensei que fosses tu. Gostei de imaginar que ainda estavas cá. Gostava de poder dizer que ainda o estás. Mas mesmo assim, foi bom, foi bom. Não deu para matar saudades, nem sequer para te dizer tudo o que te quero dizer, tudo o que aponto no quadro de tarefas do meu coração para te falar, mas soube bem... Soube bem, saber que ainda não te esqueci. Ridícula ideia essa, não é? Mas sempre sabes que tive medo, tive sempre medo de chegar o dia em que vou querer dizer aos meus filhos o maravilhoso avô que tive, e não me lembrar de detalhes, como a maneira como a tua boca se inclinava para um certo e determinado quando sorrias. É bom saber, é bom saber que ainda és o meu predilecto, e que de vês em quando esta magia da saudade ainda me permite ver-te e ouvir-te. O que não é bom saber, é que ainda não fui liberta deste castigo imenso que é chorar por ti sempre que me vens à memória.

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3 comentários

  1. um abraço gigante, enquanto te digo, em silêncio, o quanto gosto de ti. sentes? sentes tanto.

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  2. Foi dos textos mais bonitos que li ... Parabéns pequenina*

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  3. so para te dizer com uma lagrima no olho que quando amamos alguem ela esta sempre connosco
    tb sinto saudades
    um beijo

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