espero que ela oiça. *

quarta-feira, novembro 20, 2013

Acordei com as mãos frias e com o coração gelado. O céu estava cinzento e as nuvens ocultavam o céu. Como estava o tempo há um ano atrás? Acho que não tive tempo para perceber. Ainda não sei bem como aconteceu, mas foi há exactamente há um ano atrás que recebi a notícia da tua partida. A triste, amarga e fria notícia de que tinhas ido embora. Porque é que não ficaste mais um tempo, meu bem? Um ano que se passou e ainda espero que chegues. Que quando voltar para casa, o teu menino me diga para te irmos visitar ao hospital e que está tudo bem, vais ter alta e vamos continuar a beber chá e comer bolachas maria com queijo.
Tenho saudades tuas, avó. Mais saudades do que acho que o meu coração pode suportar. Devias ter ficado, sabes? Devias ter ficado porque este mundo sente muito a tua falta. Não sou só eu. As flores já não brilham como antes, como tu as fazias bilhar, o céu preenche-se demasiadas vezes de noites “tristes como a gente” e não fica quentinho como tu tão gostavas para irmos de comboio ao Porto. Acreditas que até os pássaros sentem a tua falta? Já não os oiço cantar. A única coisa que oiço, de vez em quando, é a tua voz. A tua doce voz, a chamar-me riqueza e anunciar que não partiste.  Os meus ouvidos sentem saudades de te ouvir: a falar das contas, das rendas, dos legumes e de tudo aquilo a qual acrescentavas um brilho extra. O meu corpo sente saudades de te abraçar e toda a minha alma sente-se incompleta sem ti. Devias ter ficado, porque só assim é que este mundo era completo. Devias ter ficado porque eu queria que os meus filhos te conhecem, que fosses ao meu casamento e que fosses tu a explicar aos meus netos a magia do chá. Devias ter cá ficado porque o futuro não tem lá muita lógica sem ti, simplesmente não tem.
Foste (e és) o único ser humano que sei que tem a capacidade de iluminar este mundo. Por isso em dias como hoje, em que a madrugada começa escura e que o dia se transforma em luminoso e com o sol digno de São Martinho, sei que és tu. Que ainda são aqueles bocados de ti que nunca morrem a manifestarem-se. És tu a relembrar-me que todos os dias são lindos e que me vais sempre iluminar o caminho. Como a mãe diz, existem três estrelinhas que estão sempre comigo. E tu, meu amor, és a maior delas todas. És tu que iluminas o céu mais escuro e me ajudas a aguentar esta vida, que nem sempre é fácil.
Sabes, hoje ando sempre com as mãos geladas. Com aquele ar gélido que se tatuou o meu coração há um ano atrás. E sei que também és tu. Lembras-te quando te aquecia as mãos, que estavam sempre geladas, debaixo da manta quente? E ficávamos serões e serões a falar de mãos dadas? Hoje as minhas mãos estão assim frias, como se tivesse estado o dia todo a aquecer-te, a tratar de ti. Mas afinal quem tratou sempre de mim, foste tu, não foste? Por isso é que secas as minhas lágrimas com estas (tuas) mãos geladas, por isso é que o sol está tão brilhante – noutro caso estaria triste e miserável desde a tua partida -  e por isso é que hoje ainda consigo sorrir: porque conheci alguém que sempre tratou de mim e aninhei o meu coração no melhor ser humano que conheci. E mesmo hoje, fizeste questão que eu não me esquecesse disso. Porque tu estás sempre presente. Porque tu não te vais embora e estejas onde estiveres a recordação deste amor tão grande está sempre comigo. E isso, vai vencer sempre qualquer saudade. Mas mesmo assim, hoje, só hoje, podias recuar  um ano atrás e alterar tudo para continuares aqui, ao meu lado. 

Respiro fundo e lembro-me da força, que guardo dentro do meu corpo, espero que ela oiça.

You Might Also Like

6 comentários

Seguidores

Junta-te ao Facebook

Amantes de Chá

Junta-te ao grupo #umaxícaradechá