Mas, quanto tempo tens, tempo?

quinta-feira, fevereiro 20, 2014

Estava a aguardar por ele no alpendre. Era Verão e o céu começava a pintar-se de cor-de-rosa, a cor favorita da mamã. Tinha estado o dia todo a brincar no lago das tartarugas: pintei-lhes as carapaças da cor favorita dele e depois ainda lhes li um bocado do nosso livro favorito – ainda que meninas tão pequenas como eu, não saibam ler. Tinha os joelhos cheios de terra, e o vestido que antes era vermelho agora estava praticamente castanho.
Enquanto esperava por ele, desci do banco de madeira gasta do alpendre, e passando pelo ninho de pássaros e pela sala turquesa, fui até ao quarto da mamã e roubei-lhe um gancho para pôr no cabelo. Queria estar bonita. Já havia tanto tempo que esperava por ele! Coloquei o gancho por entre os meus cabelos loiros, com cheiro a camomila, puxando-os para trás da orelha. Se a mamã me visse agora dizia que eu parecia uma senhora. Mas a mamã está a trabalhar. A avó está na cozinha a fazer doce de framboesa que fomos apanhar de manhã nos campos. Depois vamos fazer um bolo de chocolate e pôr o doce de framboesa por cima e vamos comê-lo ao jantar. O papá vai gostar, mas também ele está a trabalhar. Contudo, agora, ainda estou aqui à espera dele.
Combinamos que ele vinha ter comigo ao pôr-do-sol. Ele deixou-me um cartão que dizia que vinha ter comigo e que gostava muito de mim. E eu acreditei. Acreditei porque como a professora disse, se está escrito num cartão, é porque é verdade. Por isso é que no dia dos namorados, fiz um cartão ao meu pai a dizer-lhe que ele era o meu menino favorito, porque é, e tudo o que se diz nos cartões é verdade. E foi por isso que também acreditei quando ele me respondeu a dizer que eu era a princesa dele. Eu não sabia que era uma princesa, mas se o papá escreveu, eu acredito.
Sou uma princesa à espera no banco do alpendre. Os papás devem estar a chegar e ainda continuo à espera. Tenho fome. O doce começa a cheirar bem e tenho que ir ajudar a avó. Ele nunca mais vem. Mas ele prometeu que vinha, a avó disse que ele ligou a dizer isso. E quando se promete uma coisa, também é porque é verdade, não é? A mamã disse que sim. Por isso é que prometeu que o bicho papão nunca me ia fazer mal e eu já consigo dormir com a luz apagada. Eu hoje prometi à mamã que ajudava a avó, por isso é que daqui a nada vou ter que ir para dentro.
Passa uma nuvem com uma forma de tigre e outra com forma de uma lagarta. São umas nuvens bem giras. E eu, só queria subir lá para cima e ver onde é que ele anda. Mas em vez disso vejo os pais a chegarem do trabalho. Continuo no meu lugar: com as pernas à chinês e a fazer caracóis nos cabelos com as mãos. Os papás vêm ter comigo: que se passa filhota?
- Ele ainda não chegou mamã. Mas ele prometeu que vinha, portanto ele vem, não é mamã? Oh e também mandou um cartão papá! Ele disse que vinha e daqui a nada é escuro e tenho que ir ajudar a vó.
- Quem é que vem aí filhota? – disse o pai, enquanto se senta no alpendre e me coloca no seu colo.
- Ele! E se me mandou cartões e me prometeu, é porque gosta de mim e vem aí, não é? Ele disse que gostava de mim. Portanto ele vem, vamos brincar juntos e ser amigos. Ele vem aí.
- Oh meu amor, quem é que vem aí? – a mamã senta-se ao nosso lado e encosta a minha cabeça ao seu ombro e começa a fazer-me festinhas nas madeixas douradas do cabelo. De repente, eu vejo-o, lá ao fundo. Com uma mochila às costas, a vaguear pelo ar com uma velocidade impressionante. Salto do banco e vou até à entrada do jardim.
- É ele!!! O tempo chegou! É ele, é ele! – Dirijo-me para um vazio infinito e o tempo abraça-me ternamente nos seus braços de nuvem. Respiro de alívio e fecho os olhos. Sou tão pequenina que ainda acredito que isto é real. Volto-me para a borboleta que passa e que julgo ser os olhos dele: Oh tempo, quanto tempo tens? Quanto tempo tens para brincarmos, para me mandares cartões e para dizeres que gostas de mim e promessas para sempre?
O tempo não responde. E volta a voar. E com a brisa com que ele veio, também ele se vai. Entra no quarto um suspiro de ar, e com ele acordo deste sonho, ao lado estão a mamã e o papá que adormeceram a contar-me a história de boa noite. A casa cheira a framboesa. E o tempo está lá: nas horas em que passei com a avó, nas brincadeiras com a mamã e o sabonete de lavanda, na espera pelos papás e nos momentos em que eles me abraçaram e me contaram a história. E foi aí que percebi que, tudo de melhor que se pode dar a uma pessoa é assim, uma coisa simples e mágica, como o tempo.

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4 comentários

  1. Fantástico, lindo! Fantasticamente lindo, diria eu :D Adorei do início ao fim, impressionante como não perdes essa doçura que sempre foi característica das tuas publicações, outra vez: adorei :)

    beijinhos ♡

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  2. O texto é maravilhoso! Fiquei agarrada da primeira à última palavra. Fizeste-me viajar (e olha que eu sou uma leitora difícil...) e parece que ficou um leve cheiro de framboesa por aqui :)
    E tens toda a razão, o melhor que se pode dar a outra pessoa é tempo.
    Beijinhos

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