Libertar(-vos).

segunda-feira, março 10, 2014

Vi-te ao longe. Usavas a mesma camisola azul e no vento ainda corria o teu perfume. Estava a chover e, como sempre, ias sem guarda-chuva. Vi-te da janela do meu quarto. O quarto de paredes vermelhas que já ouviu falar tanto de ti (o que vale é que as paredes sabem guardar segredos, não é?). Lá fora a chuva caí cada vez mais forte como se o céu estivesse revoltado com o facto de estares a passar pela minha rua e nem sequer ousares mandar-me um beijo pelo vento. Devias molhar-te e perceber que estas lágrimas são de alguém que chora a tua ausência. Mas tu não percebes e continuas a caminhar e eu pareço uma menina que foi abandonada na feira popular: são tão electrizantes os sentimentos que deixas em mim que não sei se hei-de chorar por estares longe ou por ainda gostar tanto de ti.
Gostava de entender. Gostava de entender como te esquecer. Como deixar passar esta dor que não sara, a ferida que não pára de crescer. Gostava de te esquecer, perdoar... libertar-te deste coração sofrido. É como se fosses prisioneiro, sabes? Um prisioneiro que não sabe onde é a sua própria prisão. Mas tu não sofres com isso, sou eu: esta reles e humilde prisão que sofre com a tua presença. E eu só gostava de te libertar. Perceber que nunca mais vais parar nesta casa, neste quarto, neste olhar. Nunca mais me vais dirigir uma palavra carinhosa, um abraço mais apertado e o teu silêncio - que só eu sabia compreender. Gostava de te libertar desta prisão que espera que voltes, que isto seja um pesadelo e que continuas aqui a abraçar-me com a tua camisola azul e a ser invadida pelo teu perfume. Gostava de te libertar para nao continuar à espera que te sentes ao meu lado e sejamos confidentes um do outro. Ou que vamos passear, quando o sol brilhar (quando é que esses dias chegam mesmo, para nós?), como se a companhia um do outro fosse mais natural do que o curso do rio. Quero libertar-te das conversas que foram apagadas, das gargalhas esquecidas e dos abraços frios. 
Mas mais do que querer libertar-te, quero libertar-nos. De um passado que não volta, de uma luta que perdemos, de uma amizade que deixou de existir (mas as amizades não são eternas?). Não merecemos, os dois, continuar à espera de pessoas que não voltam, de momentos que não se recuperam. E, acima de tudo, à espera de que tu, amizade, te lembres de bater à minha porta e de me entregar novamente tudo o que me tiraste: as conversas, os abraços, o silêncio, os sentimentos e a esperança que existam pessoas que - mesmo no meio da chuva endiabrada - voltem. Porque a verdade, é que existem pessoas que não voltam e por mais que as queiramos libertar, nunca as esquecemos (nem à esperança secreta da sua vinda).

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