By Mariana Neves - outubro 13, 2014


Procuro as tuas mãos enrugadas pela cidade, pelos corpos que transitam no trânsito ouso reconhecer-te o rasto. Procuro a tua voz na gargalha dos idosos que jogam à bisca e a tua atenção naqueles que lêem o jornal. No céu, procuro o teu olhar que brilhava como estrelas na noite mais escura. Mas tu escureceste-me. Tiraste-me a luz deste mundo que fica tão cinzento sem ti. Sem ti, não consigo ver claramente. Tiraste-me a visão daquele mundo que conhecíamos, tão belo, tão inocente. Tiraste-me a esperança neste vale de lágrimas. Mas mesmo assim reconheço-te na picada que o meu coração sofre de vez em quando: és tu a dar-me um abraço mais apertado? 
Hoje faz cinco anos que foste embora e ainda espero que voltes. Ó avô vá lá.. volta depressa. Não aguento muito mais. A tua menina mais pequenina está tão crescida. Sabes que agora trabalho num sítio onde tem muitos velhinhos (quase) como tu? (porque nunca vai haver ninguém como tu) E que de vez em quando visito alguns que estavam como tu estavas? Nesses dias a saudade trepa-me pelas paredes do coração e tudo o que o meu corpo grita e pede é para que voltes. Corróis-me a alma, como uma praga que não morre, como um sentimento que sempre cresce. Não exagero se digo que me lembro de ti todos os dias. Tu és a força que me segue, o sorriso que em mim nasce. Sei que lá em cima, lá em baixo, em qualquer sítio que seja, tu (e ela) estão comigo. Mas sabes, a cevada não sabe ao mesmo, as bolachas com queijo já não são tão boas e a vida sem ti, sem vocês, não tem o mesmo sentido. 
Tenho saudades tuas, das tuas bochechas. Prometo e juro que ainda me lembro do toque da tua mão na minha e da forma como sorrias sempre que te dava um beijinho na testa, como vês, nunca te esqueci. É impossível esquecer-te. Revejo-te mesmo estando cega de saudades. Mesmo que o meu coração aperte tanto que me custe a respirar. Vejo-te uma, duas e três vezes na minha memória. Estás encostado ao sofá, sentado na cadeira de rodas junto à janela. Estás nesse teu jeito inclinado a usar uma camisa de flanela e a avó tem o leite a ferver. Os teus olhos estão grandes e a tua pele jovem como que ainda ontem tivesses feito vinte anos. Tens as mãos cansadas e duras do trabalho, mas é no teu sorriso que mora o teu coração de ouro. E é quando me dás um beijinho, com a boca meia fechada (já custa um bocadinho não é?) e me dás a mão que eu te recordo como sempre o fiz: pelo melhor avô do mundo. Por isso hoje recorda-me também: com o cabelo mais curto, mais gordinha, mais menina e com mais luz no olhar e deixa-me dar-te mais um beijinho - bem repenicado - na tua testa. E vamos fingir que estes cinco anos não passaram e ainda hoje nos voltamos a encontrar. Está bem? É que as saudades já são tantas e eu sou tão (a tua) pequenina para aguentar.

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10 comentários

  1. Que texto, soube tão bem ler ao som da chuva! :)

    Sofia Pinto

    Morning Dreams

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    1. Obrigada Sofia, ainda bem que gostaste :') beijinhos!

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  2. Texto lindo, lindo, lindo! Fiquei apertadinha de saudades da minha bisavó...

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  3. Escreves tãooooo bem! É uma delicia ler! =))

    http://agatadesaltosaltos.blogspot.pt/

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  4. Sinceramente? Obrigado por me ter dado a oportunidade de ler o melhor texto de sempre. Perdi o meu tudo, entenda-se pelo meu avô, à menos de um mês e este texto acalmou-me a alma. Obrigada, de fundo de coração.

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