Quando a (tua) chuva for bonita e a trovoada não (me) assustar.

quarta-feira, maio 21, 2014

Voltei a deitar-me, numa cama iluminada pela tua ausência, numa noite que tal como eu chorava de medo. Chovia e trovejava e nem assim a tristeza da Natureza se comparava à minha. Foste embora. Foste embora há tanto tempo, tantos anos, e mesmo assim parece que cada vez que me deito nesta cama, que passou a ter lençóis brancos vazios de ti, é a primeira vez. A primeira vez, a primeira noite, sem o abraço que me aconchega e me diz que vai ficar tudo bem. Precisava do teu abraço. Precisava de saber que vai ficar tudo bem e que mesmo com esta tempestade enorme que há lá fora – e cá dentro – não tenho que me preocupar. Mesmo que a casa caísse, mesmo que eu caísse, estavas ali para me apanhar não era? Não, já não é. Foste-te embora, deixaste-me vazia de mim, vazia num quarto que te transpira, que te suplica para voltares.
Está tudo escuro, a janela está aberta e os cortinados dançam com o vento como se de um tango se tratasse. Acho que são os únicos amantes por aqui. Viro-lhes a cabeça. O amor afinal é uma espécie em vias de extinção, não é? Pelo menos por aqui, morreu. Tal como tu. Tal como a tua presença em mim. Já não há esperança, não há réstia de brilho para que eu acredite que vás voltar. O tempo já correu, saltou e mergulhou tanto em mim, que já não há como me manter fiel às últimas palavras que te disse: “Nunca desistir daquilo que se ama”. Não desisti, apenas me estagnei neste compasso de quem chora de saudade e de quem grita para que voltes. Mas tu não ouves. Deito-me na cama, a chuva continua a dançar com os cortinados, o tecto é bem mais bonito com a escuridão (lembra-me um chão que não existe, uma parede que não me ampara). Relembro-te. Relembro-nos. Os teus dedos nas minhas costas, a tua boca no meu pescoço, o meu sorriso no teu olhar. Os meus sonhos no teu coração. Relembro-nos e por momentos ouso recriar-te novamente perto de mim. Como seria?
Se estivesses aqui, amor, acredito que chegarias ao quarto e brincavas comigo por estar a olhar para o tecto. Mostravas aquele teu sorriso de garoto em cara de homem. Aquele sorriso que sempre me fez sentir uma miúda apaixonada, como nunca tivesse saído dos meus quinze anos. Se estivesses aqui, davas-me um beijinho na testa e – como sempre – dirigias-te à janela e ficavas a olhar o céu. Eu iria ter contigo e ajudava-te a contar as estrelas que estavam no céu. Colocavas as mãos na minha cintura, mexias-me no cabelo e mostravas-me que a chuva não é assim tão triste e que a trovoada não é assim tão assustadora. Eu sorria para ti e sabia que não havia tristeza nenhuma enquanto estivesses aqui. Falavas-me do teu dia, eu falava-te do meu, enquanto entrelaçávamos os dedos das mãos e me encostavas à parede. Fazias-me rir e corar com o teu amor, com a tua dedicação. Cuidavas de mim. Deitavas-me e abraçavas-me. Sentia a tua respiração no meu ouvido, o teu peito a descer a subir. Embalavas-me com canções que tocavas no meu coração, com melodias inexplicáveis. E bem junto ao meu ouvido dizias “vou ficar sempre contigo, mulher da minha vida”. Sorrio só de pensar em como seria… O quanto feliz me tornarias se só por um segundo voltasses e fizesses tudo aquilo a que me habituaste, tudo aquilo que sempre esperei de ti.
Mas a espera, cansou-se. E quando abro os olhos o vazio embate em mim como um carro em alta velocidade bate numa árvore quando se despista. Magoas-me até na tua ausência. Nesta espera incurável que é de estar sempre a pensar em ti. Viro-me na cama e olho para o armário. Sinto-me frágil e com medo daquele bicho papão. Aquele bicho papão enorme que nunca me larga, nunca me largou. Um bicho papão que morde, causa ferida. Um bicho papão que tantas vezes te disse que existia (só para me apertares um bocado mais contra ti) e tu nunca acreditaste. Sabes que mais? O bicho papão existe mesmo, mas chama-se de espectativa. Espectativa fantasma, espectativa que voltes e que por mais que eu continue a esperar tu vais aparecer, vais retornar a este barco que naufragou com tantas lágrimas, tanta dor. Espectativa que o amor não tenha morrido, que as noites não sejam vazias e que a chuva seja mesmo bonita. Espectativa de que não tenhas mesmo desistido. Mas afinal, espectativas nunca vão passar de espectativas, não é? E isso é que mata mais. Porque nestes anos todos, nada mudou, nada mesmo.

Reflexões

32 anos de erros, 10 anos de mudança.

segunda-feira, maio 19, 2014


Esta semana conheci uma pessoa que consumiu drogas durante trinta e dois anos. Trinta e dois anos de erros, de vícios, de lutas. Trinta e dois anos de doença. Trinta e dois anos: bem mais do que a idade que tenho agora. Trinta e dois anos: quase metade de uma vida. Mas mesmo assim, ao fim de trinta e dois anos, a pessoa que conheci curou-se. Curou-se, como quem diz, porque há coisas das quais uma pessoa nunca se cura, apenas aprende a lidar com elas. Aprendeu a lidar com uma doença horrível, com escolhas que matam, e isolou-a. Isolou-a no seu ser como alguém que fica em quarentena. Mas este isolamento não durou só quarenta dias. Já lá vão dez anos. Dez anos de transformação. Dez anos, onde todos os dias se escolhe não voltar atrás. Não voltar a consumir. Não voltar a ficar doente. Não voltar às más escolhas. Dez anos de decisões difíceis para uma vida um bocado mais fácil (e duradoura).
Esta semana conheci uma pessoa que me inspirou. Uma pessoa que me inspirou a acordar todos os dias daqui para diante com a escolha de não voltar às más escolhas. De não voltar à doença. De não voltar ao instinto mortal. De não me voltar a consumir, seja lá com o que for. Porque a vida é demasiado curta. E vinte anos são uma ninharia tendo em conta aquilo que ainda me espera (dez anos, no mínimo, de boas escolhas). Portanto a partir de hoje, vou escolher-me a mim, não aquele bocadinho de “doença” que me ataca ferozmente de vez em quando. Porque não foram vinte anos a consumir drogas (nem nada que se pareça), mas de vez em quando temos que nos inspirar por estas pessoas: que se conseguiram livrar de coisas bem mais importantes e pensar que também nós conseguimos mudar e remediar aquelas coisas menos boas que fomos fazendo. 
Esta semana conheci uma pessoa que me ensinou que nunca é demasiado tarde para mudar de caminho e ir noutra direcção diferente daquela que seguimos. Nunca é demasiado tarde. Nunca é tarde. E agora, exactamente neste segundo, é o momento para começar a tomar decisões diferentes, decisões que consideramos boas.

Natureza

O meu projeto a encher-se de vida.

domingo, maio 18, 2014


Vou ser sincera, quando me propus a ter a minha própria horta não pensei que a ideia fosse durar, não pensei que eu realmente me fosse comprometer com aquele pedaço de terra. Isto porque esta ideia já me tinha passado tantas vezes pela cabeça e eu, tantas vezes, deixei-a de parte: porque não tive paciência, porque dava trabalho, porque não tinha o conhecimento suficiente, porque a terra não estava suficientemente nutrida e mais umas quantas desculpas de mau pagador. Contudo desde o momento (há um ano atrás!) que comecei a ler livros sobre agricultura biológica e a esquematizar a minha horta, o bichinho das aromáticas e dos chás pegou-se um bocadinho mais a mim. E a verdade é que acabei mesmo por me dedicar a este projecto.


Esta minha horta passou a ser muito mais que uma horta, aliás, como lhe chamo, passou a ser o meu projecto com vida. São uns escassos metros de um território só meu: que me permite cuidar e acariciar aquilo que tanto gosto e me dá prazer ver crescer. São uns escassos metros terapêuticos, uns escassos metros onde me reencontro: de pés descalços na terra a cuidar desta nossa Mãe Natureza que faz de mim tanto daquilo que sou. Que faz de mim a essência. Creio que o grande segredo para me dedicar tanto a esta horta é esse mesmo: porque é a minha essência. Tratar. Descobrir. Mimar. Semear. Crescer. Aprender. 


Dá-me prazer redescobrir sempre que olho para as plantas o grande poder da Mãe Natureza. Este poder, da vida, da reparação, da mudança, este poder cíclico em que nada morre, tudo se transforma. Dá-me prazer ser uma observadora (e por vezes uma intermediária) neste processo magnifico que envolve todos os seres vivos. Deu-me prazer ajudar a cidreira (que quase secou com a geada) a erguer-se novamente, e por entre folhas secas ver brotas pedacinhos verdes que já formaram uma bela e grandiosa planta. Deu-me prazer ver a calêndua espalhar filhos pelo espaço disponível. Deu-me prazer ver o tomilho renascer depois de, sem querer, por causa das obras ter levado um bocado de cimento em cima. Deu-me prazer ver novas plantas chegarem ao terreno: aloe vera e limonete. Deu-me prazer tirar as ervas daninhas, uma a uma, e ir verificando os novos rebentos de cada planta. Deu-me prazer ver esta magia bem perto dos meus dedos. E assim vai continuar, porque uma vez que se descobre este milagre imenso que é a Natureza uma pessoa simplesmente está proibida de parar. Sabem que mais? A vida é um milagre maravilhoso.

Reflexões

Isto de ser blogger... (seis anos desta vida!)

quinta-feira, maio 08, 2014

Isto de ser blogger tem muito que se lhe diga. Chamo-me de blogger embora não saiba bem se mereço essa definição, contudo apercebi-me que ando desde 2008 por estas bandas: com pseudónimos, em várias plataformas, com quatro ou cinco blogues... feitas as contas ando por cá desde 2008. E andar por cá há seis anos, desde os meus 14 anos, já faz de mim um bocado entendida no assunto, não é? Cresci com um blogue nas mãos. Cresci com blogues secretos, privados e conhecidos nas mãos. Cresci a escrever. Credo, cresci tanto a escrever! E quem cresce a escrever descobre sempre um bocado mais de si próprio. Por isso é que fiz dos blogues os meus melhores amigos e a eles me dediquei todos estes seis anos. Sempre que escrevo para mim (sempre para mim primeiro) e para vocês descubro um bocado mais de mim e revelo-o a vocês. É preciso ter coragem para escrever à séria e ter um blogue. É difícil escrever sobre o que nos faz crescer, mudar, aprender e revelá-lo ao mundo. É difícil sermos uma janela aberta e termos pessoas (que tantas das vezes nem conhecemos) a ler-nos a torto e a direito. É difícil assumir as nossas duvidas, conquistas e derrotas especialmente quando temos que escrever publicamente sobre elas. É difícil mas é também isso que torna esta vida de "blogger" tão aliciante, tão fascinante, tão apaixonante. 
Escrever é uma verdadeira paixão. É algo que permite uma pessoa respirar. Clareira-nos o espírito nos dias mais nublados. E poder fazê-lo, sabendo que outras pessoas se vão identificar com elas, é magnifico. É extraordinário os laços que se criam por palavras, especialmente quando os laços se associam a rostos que se perduram. É gratificante para nós e para quem nos rodeia escrever. Escrever num blogue, é muito mais que uma terapia, muito mais que uma forma de comunicação, é uma forma de estar na vida (de cabeça erguida, com coragem para assumirmos aquilo que somos e aceitar-mos as criticas que daí vêm). Ser blogger é estar aberto ao mundo: ao que vem de melhor e ao que vem de pior. É estar receptivo a aprendizagens, a opiniões, a partilhas, e aquilo que verdadeiramente somos. Mas nem sempre é facil ser blogger...
Ser blogger dá trabalho. Quando se é um verdadeiro blogger (coisa que um dia hei-de ser) o trabalho é gigante. São as fotos, os textos, os e-mails, os comentários, as parcerias e tudo aquilo para que nem sempre se tem tempo. Ser blogger (de corpo e alma) é uma forma de estar na vida: é fotografar refeições e deixar a familia toda a espera antes de comer, é levar sempre a máquina atrás e estar sempre conectado à internet respondendo a comentários e mails. Ser um blogger é andar sempre atualizado. Mas é também ter o direito de não andar sempre atualizado. É este o lado bom de andar nesta "vida": somos o tipo de blogger que queremos ser, consoante o presente. Há uma liberdade muito grande na questão de ter um blogue e é bem assim que eu gosto dela: escrever quando quero, sobre o que quero. Para quê colocar regras numa paixão? É tão bom deixá-la ir com o vento. E isto de ser blogger é seguir uma paixão do caraças! 

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quarta-feira, maio 07, 2014

Encontrei-te. Encontrei-te na rua onde te deixe há tantos anos atrás. Estava escuro, as folhas de eucalipto jaziam no chão como corpos enamorados abandonados na solidão. Estava escuro, as estrelas do céu palpitavam como um coração que morre. Estava escuro e onde estavas tu? Onde andavas tu? "Meu bem, que saudades tuas." - murmurava o vento. O vento murmura (e murmurou este tempo todo, não foi?) algo que nem eu sabia. Faltavas-me. Faltavas-me: noites escuras em papeis tingidos a café. Faltavas-me: cigarros e incenso. Faltavas-me: caminhadas sem rumo. Faltavas-me e encontrei-te naquela rua tão fria no calor da dor de te ter perdido (queimaste tanto de mim, com essa dor que me suga).
Encontrei-te. Encontra-mo-nos.Estavas perdida pequena? Por onde andaste tu? Quantos mundos encontraste? Quantos mares remaste? Quantos barcos naufragaste e quantos aviões abandonaste? Quantas vezes te perdeste nesta tua (e nossa) descoberta? Descansa, descansa. Encontrei-te nos meus braços. Encontrei-te. Revelar-te-ei o sol das cores que quiseres. Descansa, não te percas mais. Vamos perder-mo-nos juntas como malucos pelas ruas que anseiam o sol. Encontra-te comigo. Junta-te a mim. Dá-me a mão e deixa-me tirar-te desse mundo perdido.
Encosta a tua mão de pele tão seca (também a tua pele se perdeu na dor?) nas minhas mãos macias. Vamos aquele rio, que cheira a lavanda, e a liberdade emana. Volta a nadar nua sobre a luz do sol (ou da lua se quiseres). Volta a sorrir, a deixar-te alegrar com a tua existência. Faz das folhas abandonadas de eucalipto o caça sonhos que te liberta de um mundo que nem sempre aceita a tua liberdade, que nem sempre te aceita. Encontrei-te escura e no meu abraço te pintarei com as cores da vida. Abraça-te. Encontrei-te. Encontra-mo-nos. As saudades eram tantas, sunshine. Nunca mais nos perdemos. 

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