Reflexões

O que se tem passado nos últimos dias & o regresso ao blog!

quarta-feira, agosto 13, 2014

Ao fim de vários meses desaparecida, chegou o momento de voltar. Existem vários motivos para ter deixado de escrever no blogue, mas a verdade é esta: desliguei-me. Simplesmente desliguei-me. Em Abril / Maio chegou o final de três anos de licenciatura e o trabalho foi árduo, daí nem sequer ter tido tempo para dizer um “olá”. Depois disso, vieram as férias e, muito honestamente, eu só queria descansar. Descansar dos meses agitados que tive: das decisões difíceis e despedidas impossíveis. Descansar do meu próprio cansaço. E para isso foi preciso desligar-me. Desliguei-me do meu cantinho (que embora a distância se tenha imposto, não deixa de ser o meu recanto virtual favorito), do facebook, do e-mail, do Projecto Cartas Cruzadas e de tudo aquilo que me pareceu demasiado exigente para enfrentar agora. 
Porque digo isto? Porque entrei numa fase onde só quero olhar para dentro: o que sou, como sou, quem sou. O resto: os outros, as opiniões insensatas de outros ficam para outras alturas. Não para agora. Não tenho paciência para a vida dos outros, muito menos para “gostar” de a ver publicada só porque sim, só porque “somos melhores que os outros”. Desliguei-me de criticas e analises sobrevalorizadas. Dei-me a liberdade para escolher aquilo que quero ver e viver. E vivo tão bem assim. Sinto como se estivesse em modo “spa”. A repousar. A acalmar-me. A mimar-me. Dando tempo ao tempo, dando tempo a mim própria e só quando todas as cicatrizes estiverem saradas, toda a pele macia (sem esta casca dura que a dor nos provoca) e conseguir respirar ao meu tempo sem querer respirar no tempo dos outros (e não me sentir mal por não o conseguir) é que hei-de voltar. 
Para já, volto aqui. A este meu (e nosso) espaço. Porque nele respiro à minha maneira e porque não há nada como voltar ao meu velho cantinho, à minha escrita, ao meu desabafo, ao meu espelho. Não há como voltar a este espaço - que cheira a incenso, tem uma vela acesa junto do chá e música "ponto de luz" da Sara Tavares a dar como banda sonora. E não há nada como me partilhar nele.


E por falar em partilhas, já que é para voltar, tenho que falar sobre a despedida à minha pequena e bela cidade: Vila Real. Três anos de ti, minha casa. Três anos de conversas nas calçadas, de noites a contar as estrelas. Três anos de aprendizagens novas e aprendizagens repetidas (ou deverei dizer erros?). Três anos de superação, de quebrar desafios. Três anos a crescer longe de tudo o que havia conhecido, mas tão mais perto daquilo que sou. Três anos de Parque Corgo e Alvão. Três anos de croissant com calda de vinho do Porto, massa com molho de iogurte e vodka de morango. Três anos de amizades transcendentes. Três anos de desilusões e milagres. Três anos de luta. Três anos de estudo. Três anos que pareceram uma vida e que criaram esta minha vida. Três anos que me transformaram, que me viram crescer. Crescer. Vila Real fez-me crescer. Fez-me ter um coração maior bem como a determinação e vontade de perseguir os sonhos (quem quer faz, quem não quer arranja desculpas). Fez-me olhar para as coisas com outros olhos. Entender coisas que me pareciam incompreensíveis. Vila Real fez-me sentir sortuda, sortuda por a poder viver e re-viver a cada respiração. Guardo-a no coração. Mentira, o coração é demasiado pequeno para uma cidade tão grande. Guardo-a em tudo de mim. Com cada pedaçinho do meu corpo, porque foi assim que a vivi: com tudo de mim. 
Despedi-me desta cidade com o coração muito apertado, com vontade de nunca a largar, de me prender a ela como uma criança se agarra às pernas da mãe quando não quer ir para o infantário. Uma parte de mim quis ficar e renovar os votos de amor pela minha cidade. Outra parte de mim anseia a mudança: a nova etapa. A etapa dos curriculuns, dos "nãos", das experiências, do "venha o que vier" e do "o que tem de ser tem muita força". Acabada a licenciatura os caminhos eram vários. Acabei por não escolher nenhum. Decidi-me a dar um ano de inexistência de expectativas e planos. Um ano a ver o que a vida tem para mim. A observar. Porque é que tem que ser sempre tudo tão apressado? Decidi que não me ia meter em nenhum mestrado, sem antes ver como estava o mercado de trabalho. Acho que hoje em dia se tem demasiada pressa para chegar a lado nenhum. Acabei o curso, um passo já está. O resto, virá.


Acho que sempre que se acaba uma etapa da nossa vida, é imediatamente feita uma retrospecção geral à nossa vida. Eu costumo fazê-lo várias vezes. Mas quando me apercebi que já tinha o diploma na mão, fui um bocado mais adiante e pensei "em quem te tornaste?". Reflecti muito. Reflecti profissional e pessoalmente e apercebi-me que durante todos estes anos de reflexões havia um "problema" que nunca saia do sítio. O problema de como eu via o meu corpo, de como eu o tratava. Eu sempre fui muito gordinha (ou como costumo dizer "fofinha") e ao longo dos anos os quilos nunca decrescem e a minha condição física tende a piorar. Eu sempre soube disto e sempre soube que para o mudar teria que fazer sacrifícios e dedicar-me mesmo à mudança. Mas do saber ao fazer, vai uma grande distância. Contudo tudo mudou quando em finais de Abril descobri que nas residências de Vila Real havia aulas de Ashtanga Yoga grátis. Para quem já me lê sabe o quanto gosto de yoga e o quanto queria retomar a prática. Daí até começar a ir a duas aulas de três horas por semana foi um instantinho. E não podia começar pelo sítio mais certo. As aulas eram maravilhosas: três horas de auto-conhecimento, simpatia, carinho, mudança, renovação. A professora de yoga superou todas as minhas expectativas e fez-me ainda ficar mais apaixonada por esta filosofia. O meu corpo, aos poucos, começou a ceder: em flexibilidade, em resistência, em equilíbrio, em confiança. Comecei a confiar mais em mim, no meu corpo. A sentir-me bem nesta pele que visto. 
Mantive as aulas até Junho, altura em que deixei permanentemente Vila Real. Em Julho não quis parar (porque se parasse os bichinhos da preguiça iam apoderar-se de mim) então inscrevi-me no ginásio. Desde então faço seis treinos por semana (domingo é o dia do descanso!), continuo com aulas de yoga uma vez por semana e sempre que posso passo pela piscina ou uma corrida à beira mar. Pois é!, já consigo correr mais do que cinco minutos seguidos! Adoro esta mudança no meu corpo. Ainda não sou apaixonada por desporto, mas digamos que sou como uma menina de 14 anos que descobriu o que era o amor e que está a descobrir lentamente o que é sentir as borboletas no estômago e que a seu tempo vai aperceber como é o primeiro amor da vida. Para já, as borboletas no estômago são maravilhosas. Adoro a sensação do pós-treino assim como tudo o que está associado. Manter a pratica de exercício físico regular, faz-me esforçar por ter também uma melhor alimentação (agora sempre que exagero o meu corpo ressente-se imediatamente! Creio que antes não me apercebia disso porque abusava sempre  e nem me apercebia) e estabelecer rituais saudáveis. Os treinos ajudaram-me muito a criar um compromisso comigo mesma. Ajudaram-me a gostar ainda mais de mim (aliás o meu "prémio" por depois do treino é ter o meu tempo para colocar creme no corpo todo e mimar-me ainda mais) e a confiar mais em mim e nas minhas capacidades.


Acredito que quando se faz uma mudança na vida, ela não vem só. Aliás, muito pelo contrário. Ao mudar um bocadinho a minha perspectiva de olhar para as coisas e de as viver, houve um rodopio de mudanças (como já deu para perceber). Foi o ginásio, o yoga, a anulação das expectativas e um esforço ainda maior por aproveitar esta grande Natureza. O tempo de férias, significa um tempo precioso: o tempo de estar em casa. De aproveitar o cheiro do incenso, o sabor a relva acabada de cortar e de desfrutar das noites de luar no jardim. Adoro a minha casa, não só pelo porto de abrigo que é, mas porque me permite viver em comunhão com a Natureza. Desde a minha pequena horta, à horta do meu pai, e aos perus, galinhas e patos, não há nada que goste mais. A sensação de estar a consumir aquilo que semeamos, colher os frutos das àrvores que plantámos... É tudo mágico, é tudo indescritível. Talvez por isso goste tanto de sumo de frutas logo pela manhã, para consumir aquilo que melhor há na nossa terra. Enamoro-me com esta vida. Esta vida de aproveitar o sol, esta vida de simplicidade, esta vida de gestos tão pequenos que se transformam em coisas tão grandes. Sei que esta é a vida que quero levar: uma vida mais natural. Por isso mesmo, voltei à minha vida vegetariana, se bem que dispenso os rótulos. Sou vegetariana a maior parte dos meus dias, mas se me apetecer, se me sentir mal, se a situação for diferente, não me vou sentir mal por consumir um produto animal (biológico!). Mas claro, sem sombra de dúvida, que ser vegetariana é aquilo que sou e é sempre aquilo que me guia, apenas quero criar um equilíbrio entre as minhas escolhas e as escolhas dos outros (ter visto como as pessoas ficaram felizes e "à vontade" quando deixei de ser vegetariana, fez-me entender que a minha escolha estava a incluir bem mais pessoas do que aquelas que pensava). O que me faz repensar naquilo que escrevi em cima... equilíbrio, sempre o equilíbrio. 


Por último, e não menos importante, cada vez me apercebo mais que a vida é demasiado curta, demasiado preciosa, para não a vivermos como queremos, mesmo que isso signifique alguns sacrifícios. É como o meu pai diz: o que seria de nós, sem sacrifício, sem esforço, sem trabalho? Qual seria a realização, o orgulho? O que seria de nós? Sinto-me realizada, orgulhosa, poderosa e só isso vale tudo. Estava a escrever este texto e lembrei-me de uma frase que acompanhou a minha adolescência, de Henry Thoreau "Fui para os bosques viver de livre vontade. Para sugar todo o Tutano da Vida. Para aniquilar tudo o que não era vida e para quando morrer, não descobrir que não vivi." Eu não preciso de bosques, ou montanhas, afinal tenho tudo aquilo que sempre precisei e sempre quis, embora obviamente isso também inclua bosques encantados. Sinto-me grata por isto, por tudo, tão grata. 


 instagram: @mmariananeves
Obrigada por me leres, um xi- enorme,  Mariana.

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