Não me mintas, mas será que é verdade que ainda te amo?

quarta-feira, novembro 04, 2015

Vi-te a passar por mim na rua, estás mais magro e mais bonito. Tens o cabelo mais curto, usavas uma camisola branca e um cachecol azul-marinho, tinhas a barba por fazer e o teu olhar ocupado com os sonhos que te preenchem. Estás bonito, homem. Bem mais bonito do que no dia em que te conheci. Ainda te lembras? Usavas uma camisola castanha que destoava completamente com o teu cabelo e com a leveza do teu sorriso. Mas condizia com a sobriedade do teu abraço. Lembrar-me disto e sorrir, como se ainda fosse a rapariga de cabelo comprido e despenteado, faz-me pensar naquilo que senti quando o meu olhar te seguiu. Não me mintas... mas será que é verdade que ainda te amo? Não sei. Acho que o amor nunca se foi, mas também nunca ficou. 
Dizem que o amor é concreto e não há espaço para dúvidas. A verdade é que o nosso amor sempre foi uma casa abandonada com riqueza de luz. Nunca houve nada concreto em nós: como se todos os beijos tivessem sido dados de olhos fechados e no escuro da noite sem permissão para descobrir verdadeiramente o que se passava. E as dúvidas foram sempre a assinatura que finalizava todas as nossas cartas, mesmo aquelas que não te entreguei. Não me mintas... mas será que é verdade que ainda te amo? 
Quando te vi, não quis acreditar, pestanejei duas vezes seguidas. Exactamente do modo que eu fazia quando me ligavas às seis da manhã só para me acordar. Existem momentos na realidade que parecem extraídos de um sonho e torna-se difícil de acreditar. Ver-te, porém, não sei se foi um sonho ou um pesadelo. Não sei se o meu coração sorriu ou chorou. É bom ver-te, assumo, mas rever-te como quem és, é horrivel. Faz-me sentir saudades da tua barba no meu pescoço, da tua mão a entrelaçar a minha. Oh, não me mintas..., mas será que é verdade que ainda te amo? Quer-me parecer que sim nesta minha certeza nula. 
Naquele dia, estava no café de vidro no centro da praça. O mesmo café onde nos encontramos tantas vezes. Nunca deixei de lá ir, sabias? Mesmo quando entrei lá a derramar lágrimas e em todas as vezes que sai de lá vazia, nunca deixei de lá ir. Tu, contudo, sei que nunca mais foste lá. Já não havia o teu perfume no ar, e deixaram de fazer aqueles bolos com frutos vermelhos que tu tanto gostavas. Hoje foi mais um dos tantos em que te esperei. Mas hoje, encontrei-te. Lá fora. Há quanto tempo não percorrias as ruas desta cidade e do meu coração? Há tanto tempo que duvido como ainda conseguias caminhar como se tivesses a determinação de estar a percorrer o caminho certo. Sempre pareceste saber para onde ias, ao contrário de mim que sempre andei a naufragar num mar em dia de tempestade. Talvez por isso tenhas entrado tão rápido no meu coração: porque sabias exactamente para onde ir. 
Acho que ainda hoje sabes. Desconfio que quando passaste à minha beira sabias que o meu coração ia disparatar umas quantas memórias no vazio da nossa existência. Estranho, como já deixamos de ser nós, não é? É. Desconfio também que sabias que mal te vi ia pensar em como estarias, com quem estarias e roer-me de inveja por alguém te ter e não eu. Ai... meu amor, não me mintas, mas será que é verdade que ainda te amo?

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