Reflexões

A memória dos dentes e do coração.

sábado, setembro 26, 2015

Usei aparelho nos dentes durante um ano. Quando deixei de ter ferrinhos nos dentes e um sorriso metálico, deram-me uma contenção para os dentes não voltarem a ir para o sítio errado. Nem sempre a uso. Ontem, ao falar disso, disseram-me: "É mesmo importante que a uses. Sabes, os dentes, têm memória." A conversa continuou, de dentes passamos para outros assuntos mais importantes e nunca mais voltei a pensar nisso. Até agora.
Se os dentes têm memória e são tão pequeninos, como será a memória do coração? Se libertarmos os dentes, sem contenção, eles voltam ao sítio? E o coração? Que acontece, se o deixarmos ir para o sítio onde esteve antes? Talvez largar a contenção do coração, será também ir até onde o coração nos levar. Mas e se a memória dele estiver estragada? E se não passar apenas de memórias? Todos temos memórias, boas e más (esperando sempre que sejam sempre mais boas que más). E se o coração, quando o libertarmos, for atrás de tudo aquilo que nos ficou tatuado no cérebro e na alma?
O facto do coração ter memória e não apenas ser a nossa consciência a tê-la explica muita coisa. Explica porque é que existem dias em que nos apetece a torrada que comíamos na manhã na faculdade e um compal de pêssego, entre outras coisas. Explica porque é que trocamos nomes e porque é que às vezes existem vontades inexplicáveis de voltar a sítios onde fomos tão felizes (ou não). Explica também, sem forma de maior justificação possível, porque é que sentimos saudades de pessoas que nos fizeram tão mal e que o nosso desejo deveria ser antes nunca mais as ver. Se o coração tem memória, e eu cá não duvido que tenha, ela é matreira e não a controlamos minimamente. Se o coração sente, nós sentimos, e às vezes não há contenção que nos valha, porque o que entra na memória do nosso coração, entra na nossa vida para sempre.

Reflexões

Quando nos afogamos (com palavras).

segunda-feira, setembro 07, 2015

{Image by Digpik}

Existem palavras que nos atacam como a água fria ataca o nosso corpo quente, quando a luz falta e o esquentador não liga, ou então a botija de gás já não tem mais energia para nos dar (como nos acontece tantas vezes em relação a este mundo). São, certamente, palavras que nos chocam e magoam. Mas palavras elas, que também nos fazem mergulhar num mar de sentimentos, introspecção e reconhecimento daquilo que somos naquele exacto momento em que nos afogamos. Perceber, ouvir e encarar aquilo que somos quando o chão some e a respiração é a única coisa que controlamos nem sempre é fácil. É o centro de nós: as memórias que passam, os arrependimentos que surgem e todas as palavras que anteriormente ouvimos fazem sentido. 
As palavras água-fria ou pedra-na-janela. Palavras, simples frases, que entram pelo nosso ouvido passando pelo nosso corpo apenas para nos acordar e contagiar cada pequena célula de vida com uma revolução. E nos fazem perguntar, duvidar daquilo que somos até agora. Seremos aquilo que pensamos ser? Entre a dúvida e o medo venha o diabo e escolha qual a melhor para habitar em nós.
Existem palavras que nos afundam, que fazem com que nos percamos de nós mesmos. Mas existem também palavras que logo após nos afundarem nos trazem à mó de cima. Palavras que só permitem três segundos debaixo de água gelada para percebermos que, quando não temos nada, quem somos verdadeiramente. 
Existem palavras que nos afundam e nos salvam. Que nos prendem e nos libertam. E enquanto a liberdade: dos nossos medos, dúvidas e fantasmas, for o seu objetivo, que venham elas. Vamos aguentar mais um afogamento, vamos despir-nos um bocadinho menos de rodeios e vamos deixar que estas palavras nos salvem. Sim? 

Reflexões

Quem nos mandou deixar de sentir?

terça-feira, setembro 01, 2015

Enquanto defendermos o melhor do mundo, todo o mal nos vai acontecer. Enquanto acreditarmos que existem sorrisos verdadeiramente sinceros e abraços onde os corações se tocam, vamos magoar-nos. Enquanto acharmos que por detrás de uma porta de ódio está uma casa de amor, viveremos numa cidade deserta. Esperar pelo melhor, viver pelo melhor, é a maior extinção do planeta onde vivemos. Estamos proibidos de pensar assim. Porque se assim for, somos crianças, nunca fomos magoados e o mundo não passa de uma utopia.
Mas será mesmo? Porquê, pergunto-me, a partir de uma certa idade nos violam os sonhos e espancam as asas? Porque é que somos proibidos de sonhar? Porque não pudemos viver com a cabeça preenchida de sonhos em vez de preocupações mesquinhas? Porque é que, enquanto o tempo passa, somos bombardeados com oposições ao nosso olhar, como se um momento para o outro, as pessoas deixassem de sentir o brilho que ele emana? Aliás, como se de um momento para o outro as pessoas deixassem de sentir. Porque somos condenados em vidas fechados em nós mesmos, em noites adormecidas nos nossos próprios braços (mesmo que ao nosso lado esteja um corpo para nos aquecer)? Porque crescemos vivendo com o coração mutilado e com défices de esperança e de vontade de mudar?
Às vezes, admito, não quero crescer mais. Não quero pertencer a um mundo, tão cruel, que diz que a magia é pura história e que um beijo não passa de um ato físico. Não, assim não quero existir. Quero um mundo onde a magia esteja em cada chá partilhado, em cada noite de chuva a bater na janela e nos sussurros que o vento emana com a brisa que cheira a pós de fada.  Quero existir num mundo em que um beijo é uma troca de palavras, de corpos, de energias. Em que um beijo, seja tão mais do que um beijo, mas também um compromisso para o momento.  Ai, e quem nesta vida não tem falta de beijos? De comprometer-mo-nos com o agora, com este momento, este segundo, este latejo de coração. Não amanhã, não o “a-seguir-tenho-que-ir-fazer-uma-coisa-qualquer”. Agora. Já. O momento que vivemos.
Quero existir num mundo em que se vive, com sonhos, quedas e disparates sem julgamentos. Em que haja tempo para saudar o sol e sentir o vento. Em que se possa libertar o mar que há em nós sem duvidar se o que nos ampara é uma pedra ou um crocodilo. Quero um mundo onde se confie: na mão amiga, num segredo que não se espalha, num julgamento sem ressentimento. Na mudança e no optimismo. Quero um mundo em que se confie num ser humano. E não nestes seres, que somos, onde a humanidade é tão rara e a imunidade ao sentimento é cada vez maior.
Sei que enquanto fizer parte desta espécie humana (dos que ainda o são) todo o mal me vai acontecer. Porque neste caminho que percorro, sou cada vez mais solitária. Cada vez menos encontro quem compreenda estes desabafos que escrevo aos céus. Cada vez aqueles que, como eu, transparecem a alma e caminham com um sorriso na cara e o coração nas mãos. Enquanto desafiar as leis desta desumanidade e resistir a este ambiente tão tóxico, apático e descrente que nos rodeia, irei falhar segundo quem me observa. Vou perder talvez todo o discernimento por continuar a acreditar numa realidade que para a maior parte das pessoas já é um conto de fadas. Sei-o bem. Mas no final, o que importa, mesmo que todo o mal me aconteça e afinal tudo aquilo que me suporte seja um bando de crocodilos (o que duvido – haja optimismo!), mesmo que fique cheia de cicatrizes, nunca desistirei de mim. Não desistir em continuar a abraçar as pessoas de olhos fechados, para os corações falharem e lhes dizer: psiu, ainda há esperança, enquanto estivermos juntos nem todo o mal do mundo nos pode acontecer.

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