Até a última lágrima cair.

By Mariana Neves - março 11, 2016

Voltei a reconhecer-te nas minhas lágrimas, 
na dor que passa o meu peito sempre que o teu nome vagueia no meu cérebro, 
nas palpitações que o meu coração aguenta nos dias em que a saudades não dá para disfarçar. 

Gostava de perceber a anatomia desta saudade que me aprisiona. Gostava de saber porque ainda choro quando me lembro de ti. Gostava de entender porque fico aterrorizada quando percebo que ainda há bocados de ti que me atormentam e dos quais ainda gosto. 

Voltei a reconhecer-te nas lágrimas que passeiam a minha alma tal e qual pedintes numa cidade atolada de gente. Desculpa-me mas porque é que ainda gosto de ti? Porque é que ainda há réstia de lágrimas num coração tão cansado? Pensei que as lágrimas para a desilusão, a dor e a saudade que se nomeavam tuas já estivessem secas. Mas não. Até o meu coração libertar a última lágrima, gostarei sempre de ti. Perguntarei vezes e vezes sem contas à minha consciência se esta distância se justifica e se há perdão para a frieza pouco habitual com que te tento tratar. Esperando que ela me responda que sim, que o que faço é o mais acertado e que desistir de ti é a melhor forma de não desistir de mim.

Voltei a reconhecer-te nas minhas lágrimas todos os dias desde que decidi que ia desistir de gostar de ti. Como se fosse fácil desistir de ti: da esperança que depositei nos nossos sorrisos, no amor que tinha pelos nossos planos e na felicidade que era ver-te sorrir. Como se desistir de alguém que se ama fosse natural. Chorei, e choro, até haver uma última lágrima com o teu nome a deslizar pelo meu corpo. A ultima e derradeira lágrima que será como uma tatuagem. A lágrima que ira rastejar por cada pedaço de mim, cravando cada bocado da sua existência como uma agulha na pele, deixando a sua tinta, a sua essência, dolorosa e demoradamente. Até que no fim, a marca fica lá  para nunca me esquecer - porque é impossível esquecer - que um dia houve um mar de lágrimas em mim navegadas por ti. 

Voltarei a reconhecer-te até à última lágrima. Quando ela chegar, irei encará-la com significado, com história e com alegria: felizmente o sofrimento terá acabado. Mas até lá, vou-te reconhecer sempre em todas as minhas lágrimas, mesmo que tente esconder. Porque não há terror maior do que tentar desistir de ti.

  • Share:

You Might Also Like

5 comentários

  1. E tu fizeste-me também ter lágrimas com isto. Já há algum tempo que não sentia tão intensamente as palavras que lia, ao ponto de sentir a emoção que elas descrevem.. És uma força da natureza. E tem esperança, essa última lágrima chegará. <3

    ResponderEliminar
  2. não sei se existe uma ultima lágrima para alguém que é sensível, acho que não. mas tb não vejo um problema nisto . não faz mal chorar, da mesma maneira que é bom limpar as lágrimas com um sereno "já passou". venham elas as vezes que vierem...
    cultiva a tua sensibilidade neste período mais exigente. o que chamas de frieza, eu espero que seja firmeza, firme na crescente fé de que essa distancia é espaço para outras coisas novas... e boas, que te tornarão ainda mais sensível mas também mais (tranquilamente) forte.

    ResponderEliminar
  3. A precisar de ler isto "desistir de ti é a melhor forma de não desistir de mim"

    ResponderEliminar