Como se escreve uma carta?

quarta-feira, maio 25, 2016



Não sei. E acho que ninguém sabe. No primeiro dia em que aprendi a construir uma carta nas aulas de português, encarreguei-me logo de o esquecer. Guardei as regras, os parágrafos e as linhas orientadoras para as cartas sem-sentimento que tivesse que mandar pela minha vida fora. Desconfio que não vá mandar muitas dessas cartas na minha vida. Não posso esconder que o que me faz querer escrever são cartas repletas de afecto. Onde dá para sentir a emoção do outro lado da papel: a letra a tremer, as vírgulas feitas devagar como se fosse uma respiração profunda e os pontos finais que trazem mais perguntas e mais curiosidade.

Não sei a maneira perfeita de escrever uma carta mas sei que há um segredo neste ritual. O truque é não ter pressa e escrever como se se falasse com alguém. Com olhares, cruzares de mãos, silêncios incómodos e gargalhadas espalhafatosas. Por isso é que uma carta é tão especial: porque leva tempo. Sabem aquela correria do relógio? Não pode haver. Uma carta pode ter dez páginas e demorar uma noite inteira a ser escrita como conversas de amigos num bar. Mas também pode caber em meia página e demorar meia hora: como um café que se toma na pausa do trabalho. Não sei escrever cartas porque, para mim, não há regras para a escrever. Cada carta é tão única como a pessoa que a recebe. (E fala-vos alguém que já perdeu conta à centenas de cartas que já escreveu na vida). Há porém uma coisa fantástica em relação às cartas: não há julgamento. Não há erros ortográficos, esperas demasiadas longas e páginas curtas. Uma pessoa só espera que seja escrita com o coração e o resto não interessa mais. 

Aliás, uma carta só é uma carta verdadeira se for escrita com o coração. Se não for, não passará de uma carta sem sentimentos, escrita como manda as regras e sem nenhuma emoção. Se não for escrita sem regras não passará de uma carta que o banco mandou sem conta para pagar.

Perguntam-me: como se escreve uma carta? E eu não sei responder. Cada carta é tão especial que é impossível dizer-vos o "meu método". Uns dias é fácil escrever, outros não consigo desenhar nem uma palavra. Umas vezes a banda sonora é música Pop noutras vezes são os eternos clássicos que me acompanham. Numas vezes escrevo no jardim e uso a minha letra inclinada, noutros escrevo na minha secretária e uso a minha letra redonda. Já escrevi muitas cartas e a verdade é que nem vos sei dizer sequer como as começar. Sei-vos dizer o seguinte: uma carta é maravilhosamente bem escrita, quando a partir do momento em que começas a escrever a primeira frase não consegues parar. Parar de escrever, parar de falar, parar de dar mais de ti. O meu método é este... escrever as cartas, assim, partilhando-me com quem me recebe na sua caixa de correio.

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6 comentários

  1. Que bonito Mariana :) Acho que escrever uma carta é isso mesmo, pôr sentimento em papel por meio de uma caneta. Adorei!

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  2. Olá! Obrigada pela visitinha no meu blog. Destralhar sabe sempre bem!
    :)
    Lembro-me que quando era pequena, a minha mãe costumava escrever cartas a várias pessoas da família, tanto nos aniversários como no Natal. E a alegria de receber depois mãos-cheias de cartas no correio, a ansiedade de saber o que as pessoas tinham escrito...
    Que saudades...
    Tentei conservar um pouco dessa tradição no Natal, mas como hoje em dia quase ninguém escreve cartas, não recebia de volta as respostas e por isso desisti.
    Mas que tenho saudades, isso tenho.
    :)

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    1. Não há felicidade igual aquela que é receber uma carta na caixa de correio ♥

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  3. “I've always felt there is something sacred in a piece of paper that travels the earth from hand to hand, head to head, heart to heart.”

    Robert Michael Pyle, Sky Time in Gray's River: Living for Keeps in a Forgotten Place

    :) ps. já ando a fazer envelopes com sacos ♥
    Adriana

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    1. Ansiosa por ver esses envelopes! ♥
      Obrigada pela citação*

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