O terrivél magnífico 2018.

By Mariana Neves - janeiro 28, 2019


Já andava para escrever aqui sobre 2018 desde que o ano estava na iminência de acabar. Decidi que não o iria fazer porque só conseguia ver o quão terrível tinha sido o ano de 2018. Acordei então, comigo mesma, que escreveria sobre 2018 - o ano dos anos - quando conseguisse identificar as coisas boas. Não quero ser mentirosa, por isso deixem-me só dizer-vos que 2018 foi o pior ano da minha vida. Lembram-se daquilo que eu costumava dizer "nada acontece por acaso"? Não aguento essa frase, aliás quem o ousa dizer merece um estalo imaginário da minha raiva.

Tenho feito este exercício: o de olhar para o lado bom das coisas. Perceber que esse lado existe, nem que seja tão pequenino como uma molécula invisível, é uma das minhas lutas diárias. Mas bem, vamos lá à sinopse do pretérito ano antes que Janeiro acabe?

Comecei 2018 com a certeza que ia ser magnífico. Emprego novo, novas lutas, namorado de volta (o G. tinha ido para o Vietname no final de 2017). Era impossível algo correr mal, pensava eu. Mas aí é que eu estava enganada. Daí até começar a ter ataques de pânico, entrar num loop ansioso e desejar não sair de casa foi um instantinho. Assim como o diabo esfrega o olho, estava com um burnout. (eu que nem sabia bem o que é que a palavra queria dizer). Disfarcei o mais que pude. Sorria e tentava aguentar uma ansiedade que se instalava em mim com a mão dada a um cansaço galopante. Não queria que ninguém soubesse, era uma vergonha que tinha chegado a esse estado por uma ninharia. Mas cá estava eu a chorar nos braços do meu pai, da minha mãe e do G. dia-sim, dia-sim. 

Tentava controlar-me e não ver um quadro tão negativo. Ia-me focando em "escapadelas de fim-de-semana", cervejas e miminhos. Até que em Março, dia 17 de Março de 2018, sem nada o prever o meu pai liga-me a dizer que o meu cão - Baguera Bagueri Zuckini - tinha sido atropelado à porta de casa e não tinha resistido. Achei que desta vez não ia sobreviver, muito sinceramente. O meu mundo - que já estava tão abalado - tinha perdido o meu motivo para sair da cama tantas vezes. Na verdade, não sei ainda como me recuperei.

Andei a desfilar por terras que nunca reconheci. Deixei de me reconhecer. Chorava e arranjava mil desculpas para não sair da cama. Adoeci sem motivos, várias vezes. Até que cansei de me ver assim. Em Maio tive a ideia de um sonho, aliás tivemos, eu e o G começamos a arquitectar um projeto profissional, e só isso já me dava vontade de sorrir.

Felizmente de Maio a Julho as coisas foram melhorando. No início de Julho eu e o meu Pai fomos ao canil do Porto e adoptamos um cão bebé - Mogli Tomilho Encomenda Mogulu. Ele veio doente e andamos com ele no hospital uns cinco dias. Sobreviveu e resgatou o meu sorriso genuíno novamente. Já tinha forças para tomar decisões difíceis. No final desse mês não aguentei mais o estado em que estava, desisti do meu trabalho e fui atrás daquilo que realmente me fazia feliz.

Em Agosto eu e o G. retomámos um dos hábitos que me faz mais feliz e saímos de casa sem destino apenas com uma tenda e o carro. Foi a melhor semana de 2018. Digo com toda a certeza. Acordar com os pássaros, ouvir a ondulação do mar ao adormecer e tê-lo sempre ao meu lado. Levarei sempre isto como a minha memória mais feliz (isso e a felicidade do meu pai a ajudar-me a montar as tendas todas antes da viagem).

Chegada de viagem, chegou também a altura de dizer ao mundo o que tinha andado a preparar. Dia 3 de Setembro a minha vida mudou para sempre. A Impulso - a minha empresa e do G- - tinha dito Olá ao mundo. Também dia 3 de Setembro recebi a notícia que me iria tirar o coração do peito: o meu pai tinha-se sentido mal.

De dia 3 de Setembro a dia 6 de Setembro não havia nada que me consolasse. Um aneurisma levou o meu pai e eu vi-o ir-se embora entre as minhas mãos. A partir desse dia, tomei a saudade e a dor como a minha companhia mais assídua. Parece um cliché, eu sei, mas não há um único dia que não pense nisso, não há um único dia sem que eu queira voltar aquele dia e impedir de alguma forma isto de acontecer. Tivesse eu poderes mágicos e digo-vos que neste momento estava nos braços do meu pai a enchê-lo de beijinhos.

Não tendo poderes mágicos fica a lembrança dos milhões, infinitos, beijos que lhe dei. Um amor sem explicação, sem tradução, sem comparação. Ter ficado sem o meu pai mudou a minha vida de uma ponta à outra. Desde a casa até à alimentação nada saiu impune. Tudo sofreu, tudo foi mudado e nunca nada ficou o mesmo. Desde Setembro que o dia-a-dia é uma luta, um "ufa, este dia já passou, consegui, venha o outro". É desde esta altura que me sinto perdida em explicações de porquês. (Na realidade tento não pensar no porquê, porque sei que sempre tive o melhor pai do mundo e essa é a verdade mais absoluta que existe).

Em Outubro surgiu a oportunidade de um trabalho novo e os meus 25 anos. Daí ao Natal foi um instantinho. Não houveram muitas boas coisas a acontecer. Apenas desejamos que não acontecesse nada pior, que mais ninguém partisse - ainda continuamos a rezar.

Em suma os grandes problemas que achava que tinha no início de 2018, são agora tão insignificantes face ao que aconteceu. Aprendi a relativizar as coisas. A minha ansiedade está mais controlada e sei que este ano que passou me iniciou na maior batalha da minha vida: "quem me dera que o meu pai estivesse aqui".

Ele não está, mas está em mim. Eu estou aqui. Com vontade de superar tudo isto e fazer 2019 grandioso. Mais um cliché "só sabes a força que tens, quando a única opção que tens é ser forte". Depois de lerem este texto podem achar que 2018 não teve nada de magnífico e me enganei no título - podia ser - mas não. As minhas coisas magníficas de 2018 também merecem espaço: a minha mãe, o G., o Mogli, todas as pessoas que seguraram o meu coração sempre que ele se partiu e me ajudam a curar-me, e claro a série "Friends" por me dar os serões mais terapêuticos do mundo.

(quem leu até aqui merece um cházinho, quem o fez que me diga, envio o chá!)

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20 comentários

  1. Eu li e senti-te em cada palavra deste texto. Só aceito o chá se o vieres a acompanhar, numa tarde de chá e brownie. Um beijo enorme nesse coração de ouro.

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  2. De uma sinceridade arrepiante... beijinho linda <3

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  3. na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
    o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
    e eu. depois, a minha irmã mais velha
    casou-se. depois, a minha irmã mais nova
    casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
    na hora de pôr a mesa, somos cinco,
    menos a minha irmã mais velha que está
    na casa dela, menos a minha irmã mais
    nova que está na casa dela, menos o meu
    pai, menos a minha mãe viúva. cada um
    deles é um lugar vazio nesta mesa onde
    como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
    na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
    enquanto um de nós estiver vivo, seremos
    sempre cinco. - José Luis Peixoto

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  4. Olá meu raio de Sol!
    Li tudinho e senti todas as palavras que escreveste.
    Aceito esse chazinho, aliás eu agora até tenho ido mais vezes ao porto e podemos ir beber um chá e pôr a conversa em dia. Tenho muitas novidades para te contar

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  5. És das pessoas mais lindas que conheço! Quem me dera poder estar contigo regularmente! ❤

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  6. fiquei com a respiração suspensa a meio do texto. lamento muito que 2018 te tenha magoado tanto e de tantas formas. mas é admirável a maneira como, apesar de tudo isso, consegues lá ver tantas coisas boas. é essa vontade de tentar sempre ver o melhor dos dias que te salvou 2018 e que, espero, vai fazer de 2019 (e 2020, e 2021 e...) anos muito felizes!
    "Saúde e paz, o resto a gente corre atrás" :)

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  7. Queria a tua companhia para o chá, um dia talvez, por ora vou aceitar que venha num envelope, atravesse mares e chegue em terras brasileiras! Tão bom te ler, é saber que estás encontrando os "sim" da vida em pequenas e grandes coisas, pessoas, teu Mogli, enfimUm abraço !

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  8. Li tudinho, e li-te de coração atento. Mariana, nunca duvides da tua força ♥️
    P.S: em vez de mandares o chá, vamos tomar um a qualquer lado ��

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  9. Li! Tudo tudo. Gostava de ter as palavras certas... mas não sinto que as tenha. Envio apenas um abraço. Um sorriso. E vamos com (c)alma!
    Beijinhos querida Mariana

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  10. Querida Mariana... As tuas palavras emocionaram-me... apesar de tudo nunca duvides da tua força!!! És grandiosa!!! Esse chá um dia temos que o tomar juntas!!! Um grande abraço e muitos beijinhos

    Um pequeno lembrete: És mais forte do que pensas, és mais capaz do que acreditas, és (e serás sempre) muito mais do que aquilo que vês ao espelho!!!

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  11. ♥ sempre aqui Muji

    ps. só aceito chá quando te for visitar, ou tu a mim
    beijinho

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  12. Tinha mesmo de comentar este teu post. Não é fácil abrir assim o coração e contar algo tão pessoal. Eu não teria coragem, e infelizmente ainda anda um 2015/2016 a fazer estragos por estes lados. És muito corajosa, muito mesmo. Sim até pode ser um cliché esse de dar a volta, mas é preciso uma força interior muito grande. E tu tens essa força, nota-se. Um beijinho grande e que 2019 seja bem mais meigo.

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  13. Claro que li tudo Mariana, e reli... um texto triste mas também um admirávelde juramento de fidelidade... o teu Pai também teve muita sorte em ter-te como filha...escreves tão bem
    Abraço apertadinho

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  14. 2018 foi terrível para ti sim, minha flor. Mas, estou certa de que a tua força interior e a tua luz natural te vão encaminhar para um glorioso 2019. Eu cá estarei para te ajudar no caminho e para te ver brilhar! Love you.*

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  15. Encantadora Mariana! Mesmo na dor, seu olhar se mantém doce...alegrias infinitas pra ti no novo ano <3

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  16. Faz tempo que leio e acompanho os seus lindos textos. Quanta sensibilidade! Amei esse também que me emocionou demais. Estou muito longe, mas quando vier ao Brasil, te convido para um chá ou um suco refrescante..rsrs...
    Quando puder, me envie um e-mail para joycemuzy@gmail com o seu endereço, pois quem merece um chá de presente é você. Bjssssssss

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  17. Foi um terrível ano para ti, mas de certeza que 2019 vai sorrir para ti. Admiro a tua coragem de escrever estas palavras. Um beijo enorme!!

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  18. Querida Mariana, cheguei agora a este post. Em primeiro lugar que bom que estás a tentar ver todo esse lado bom. É esse o caminho, sem dúvida. Que 2019 seja mais suave e que o teu projecto tenha muito sucesso. Um abraço muito apertadinho. E se algum dia quiseres estiveres pelo Porto e quiseres ir tomar um chá... eu estou por cá! :)

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  19. Terrível magnífica é essa tua força, mesmo quando ausente, mesmo nos dias piores. És um girassol, sempre. <3

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  20. ...vinha aqui de vez em quando e desconfiei que algo devia estar a acontecer ou tinha acontecido. na verdade foi uma soma. como perdi a minha mãe num tempo mais alargado. sei que não sei nada sobre o perder de repente. sei das fases do perder devagar. adaptando uma frase de Valter Hugo Mãe "Quem perde a mãe, perde-a para sempre e nunca mais pára de a perder"... uma mãe, um pai.
    convém aceitar, elevar os ensinamentos, as partilhas, deixar vir a sensação de que estamos capazes de bater no mundo e deixá-la ir sem bater em nada...
    FORÇA (ela vem). Beijinho*

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