o mio babbino caro

By Mariana Neves - janeiro 19, 2021



Pai. Pai. Pai. Pai. 

Chamo-te no interior do meu coração para não me esquecer o quão bom é chamar-te de Pai e ter-te como meu. Chamo-te, relembro-te e o meu coração ilumina-se à medida que as lágrimas me caiem. Não te tenho escrito, desculpa-me, tiraste-me as palavras. A saudade que se instalou na minha vida tirou-me a vontade de escrever, como se nada do que eu fosse escrever fizesse juz. E nada faz.

Pai. Amo-te. 

Sei que o disse vezes suficientes (isso existe?), mas quem me dera dizer-te mais uma vez. Abraçar-te nos meus braços e não te largar. Há uma parte de mim que me abandonou quando voaste e outra parte que anda à deriva à espera de um sol mais quente. Não sei se esse sol chegará, mas verdade seja dita a tua presença na minha vida é o que mais me aquece a alma - és o borralhinho mais quente. Não te escrevo com a regularidade que preciso, que mereces, porque ainda me dói tanto. Sei que não deixará de doer, mas às vezes estou tão anestesiada desta vida que nem quero acordar desse estado. É que dói tanto saber que não estás cá. Dói muito quando esbarro numa memória tua, da tua presença ou da tua ausência. Não há dor igual, é ficar sem ar sabendo que temos todo o ar para respirar, desesperar aos céus por uma resposta que ninguém me pode dar. Por mais palavras que haja no dicionário de qualquer dialecto nada expressa a dor que é não te ter, que é perder o colo mais precioso.

Pai, amo-te com todo o amor que há em mim.

Ontem lembrei-me daquela miúda de nove anos que cantava ópera, pus o vídeo na televisão e sentei-me a ouvi-lo como tantas vezes fizemos juntos. Quase te senti - se é que não senti mesmo. Estremeci, chorei, agradeci. Agradeço tanto os vinte e quatro anos maravilhosos que me deste, as recordações que são tão preciosas. És o meu sol mais brilhante, a minha alegria todos os dias, a minha motivação, os pássaros sorridentes da primavera, a lareira quente do Inverno. E por mais destruída que a tua ausência me deixe, também ela me ensina a ser alguém mais forte. Contigo ao meu lado (e eu sei que estás sempre) a vida torna-se bela como só tu a sabes ver. 

Pai, meu Pai.

No sábado fizeste anos e eu soube que o céu estava em festa. Espero que tenha havido Planalto a preceito, risotto e vinho do Porto com bolo de laranja. Soube que houve festa porque os pássaros deslizavam nos céus para me relembrar que ainda estás cá. E que boa lembrança é essa. Parabéns meu herói, espero que o vento te leve sempre todos os abraços que o meu coração te manda.

 

  • Share:

You Might Also Like

0 comentários