Ainda vale a pena sermos felizes?

By Mariana Neves - junho 12, 2012

       Ultimamente tenho andado de olhos vendados pela rua, e quero ser fantasma invisível até às mais puras imaginações. Tenho medo de olhar para o mundo. Faz-me confusão ver o estado em que as coisas chegaram. Olho em meu redor e sinto tantas vezes um nó no coração, uma tristeza a apoderar-se de mim. Onde vamos parar? Penso nisto cada vez mais. O que fizemos de nós? Qual é o nosso futuro? Virão mais guerras, mais declínios, mais mortes, mais lágrimas, mais rancores? Que sociedade é que nos estamos a tornar? Quando é que isto vai parar? 
          Acredito que as pessoas, tal como eu, se sentem sem rumo.  Cada bocado de nós puxa para um lado diferente, é algo que diz que devemos ser simples, e outro que diz que sem sermos complexos não vamos chegar a lado nenhum, uns dizem que temos que amar o próximo e outros dizem que não se pode confiar em ninguém. Entre ilusões e irrealidades, onde ficamos? Onde está a verdade? Onde está o caminho? Sinto que continuamente a estrada que faço - como todos nós fazemos - está a ser apagada e manipulada por outros que vêm atrás de nós, ou que retrocedem só para nos alterar o caminho. Mais uma vez pergunto: Onde vamos chegar?
         Houve um tempo em que acreditei que o sorriso era a solução para esta crise, e que bastava um bocado de tempo e de disposição para o sol chegar. Hoje, acrescidas as responsabilidades e mais ciente do mundo, temo dizer que o sorriso deixou de ser modo de vida e passou a ser distracção momentânea - o paninho quente sobre a febre que nos consome. Este mundo está a pôr-nos doentes, não está? Qual é o medicamento então? Quem é que já estudou os nossos casos e se prontifica a dar-nos uma solução rápida, eficaz, e sem lucros por trás? Quem é a pessoa genuína nobre e honesta que nos vai tirar disto? Alguém nos vai tirar disto, por ventura? Juntos já nem sei se conseguimos. Sinto na minha voz medo, pavor, e instabilidade. Três palavras que nos têm classificado tanto e entrado para os ouvidos como ar. Por um lado dizem-nos que o cenário é mesmo mau, mas que caso formos para um psicólogo, tudo fica bem. Mentiras! É tudo a puxar para lados diferentes. Claro que não vamos conseguir remendar isto juntos, se continuar-mos assim não vamos. Nos dias actuais, qualquer assunto é motivo para discussão, as pessoas estão deprimidas consigo, com o mundo e com tudo o que lhes está associado. Se temos medo? Claro que temos medo! Se estamos rancorosos? Podem crer que sim.
          Acordo e adormeço com dúvidas. E "ainda" só tenho 18 anos. Mas, bem ou mal, de pensar nunca tenho férias. Tenho medo que os meus pais fiquem sem emprego, que um deles adoeça ou que sejamos assaltado. Porque isso iria mudar toda a minha vida, não só do lado afectivo (tanto do lado afectivo) mas também do monetário. Deixaria de estudar? Mesmo agora que estou na faculdade, não sei se vou ter emprego, quanto mais se não andar. O curso que tiro vai levar-me a algum lado? Concretizarei os sonhos que guardei minuciosamente na gaveta? Irei viajar pelo mundo, ajudar em África, escrever um livro? Sei lá eu! Já nem forças tenho para sonhar. As duvidas assolam-me o espírito. E sim, tenho rancor de toda esta situação, porque não é minha culpa. É culpa de quem afinal?  E os impostos têm que ser pagos, as obras na casa têm que ser feitas, roubam-nos materiais, exames médicos têm que ser realizados, os exames têm que correr bem, o jantar tem que ser feito, o quintal tem que ser arranjado, o quarto tem que ser arrumado, os medicamentos têm que ser tomados.. Mas caramba! Quem tem cabeça para tudo isto? Quem não desanima? É que mais isto são reuniões, as discussões, os planos para as férias, as contas para os orçamentos. E tão mais, tão mais! Sim, nós desanimamos. 
         Mas, e aqui é que vou parecer eu a falar, não são os psicólogos que nos vão dar as soluções. Eles dão-nos forças, dão-nos um empurrão se for necessário. Mas a solução tem que vir de nós. Ou seja, temos que exigir mais de nós? Sim, temos. Porque embora os sorrisos possam não resolver nada, e não consigamos fazer nada juntos, é das poucas coisas que temos. É das poucas coisas que não têm o direito de nos deixar em dúvida!  Nós temos que encontrar o nosso próprio caminho (dificuldade máxima dos tempos de hoje). E quando toda a gente diz para irmos aquela livraria que está em descontos, vamos falar-lhes de bibliotecas e de book crossing. Se as pessoas falam em comprar cães, vamos falar-lhes em adopções. E se toda a gente diz para irmos dizer mal de alguém no facebook, vamos pensar numa maneira de desfazer os males entendidos. Muita da pobreza de hoje em dia está na nossa cabeça!! E sim, temos todo o direito a ter duvidas, apertos no coração, e tristeza (quem não tem?), mas também sempre que pensarmos nisso - como eu estou a fazer - temos que pensar naquilo que nós podemos fazer.
         Hoje é um dia. Um dia em que estamos vivos. Hoje é um dia em que pudemos e devemos sentir a vida. Claro que é muito mais fácil desanimar e arranjar escapatórias, mas e então onde está a luta? A verdadeira luta? Estamos a esquecer-nos de lutar contra a maré, não é? Estamos a esquecer-nos de lutar pelo nosso próprio caminho. Vamos tirar um minuto (ou meio minuto, se um já for pedir de mais) e vamos respirar... Vamos arranjar soluções. E se hoje em vez de vermos a telenovela ou as noticias ler-mos um livro, ou ouvir-mos um bom cd acompanhado com as estrelas? E se hoje perguntarmos aos nossos pais/nossos filhos como lhes correu o dia e mais do que isso para eles nos dizerem as partes boas do seu dia? E se hoje deixássemos as próprias duvidas a marinar, e navegando chegarem às soluções?  
       Reparem, comecei este texto tão irritada, perdida e triste sobre o mundo, e acabei agora tendo uma noção tão grande do meu caminho. Temos medo de deixa fluir não é? Temos medo de tomar decisões fora do normal. Temos medo de sermos demasiado fantasmas nesta sociedade, e de não conseguirmos alcançar a casa de sonho ou dar aos nossos filhos aquilo que sonhamos para eles. Os sonhos às vezes matam-nos. E mais que isso, desiludem-nos, fazem com que nós queiramos desaparecer. Isso é normal. Mas depois de querermos desaparecer é bom, querer aparecer, com a força do sol, e mostrar ao mundo a alegria que ainda existe! Que ainda vale a pena querermos ser felizes. Ainda vale a pena lutar pelas respostas, e esperar pelo dia em que a felicidade vai chegar. Vale a pena.

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7 comentários

  1. gostei muito deste texto, Mariana. duas coisas : retrataste aqui aquilo que eu já te disse uma vez, ao que tu me respondeste que era tempo a mais , e segunda coisa : outras coisas que retrataste aqui são o problema de se saber muito. e acho que daí nasceu a frase " a ignorancia é uma benção" depois o texto deu aí um turn around na segunda parte que eu não quero comentar, acabando com a tua esperada positividade.

    quero terminar com palavras do Palma, que , tenham muito a ver ou não, me lembrei, não sei ao certo porquê

    " reduz as necessidades, se queres passar bem
    porque a dependencia é uma besta, que dá cabo do desejo..."

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  2. Olá Mariana.
    Este texto é muito bom.Revejo-me muitas vezes nas tuas palavras.
    A minha humilde opinião é que a solução é olhar para dentro, conhecermo-nos,escutar activamente os outros,estar presente e eliminar o medo. O medo,sim, é a fonte de muitos males.
    Confia no Universo e no que ele te traz e tudo será mais fácil.
    Não é uma tarefa fácil,mas quem disse que a vida era fácil?

    Beijinhos
    Ana

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  3. Mariana, não poderiam ser mais acertadas as tuas palavras e dúvidas. Vivemos numa sociedade apoderada pelo medo e pela falta de humildade.

    Mas a verdade é que a sociedade tem medo de que nós não tenhamos mesmo, e isso é ainda mais assustador para a sociedade. Mais difícil ainda é nós próprios parar-mos e pensar-mos em tudo o que acontece, pois nenhum de nós consegue abstrair-se na totalidade de todos os acontecimentos e pensar-mos sem tomar-mos um determinado partido.

    Por esse mesmo motivo nenhum de nós consegue estar em silêncio total, total não no sentido da ausência de ruído, mas sim silêncio na nossa alma, e não conseguimos isso com medo do nosso próprio interior, é isso que nos assusta.

    No entanto o mundo em que vivemos torna-se cada vez mais dependente da tecnologia e dos bens materiais, talvez seja por isso que cada vez nos tornamos menos "humanos" e mais máquinas, deixando os sentimentos um pouco de lado. Mas arrisco em afirmar que nenhuma máquina ou humano é infalível, pois dependemos de um grande conjunto de factores.

    Usando um pensamento comum da Inteligência Artificial, toda a inteligência é um agregar de um conjunto de pensamentos estúpidos, é talvez seja a falta do agregar destes pensamentos estúpidos que está a tornar a sociedade actual ainda mais estúpida.

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  4. Claro que vale a pena! (^.^)
    Gostei bastante.. (:
    Haja alegria! ;)

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  5. sempre valerá a pena, se a alma não for demasiado pequena.
    Escreves o que muitas pessoas pensam, mas poucas conseguem escreve-lo.

    Beijos Mariana

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  6. Gostei muito do teu desabafo e identifiquei-me muito com ele. Coragem! :)

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