Comes and goes.

By Mariana Neves - junho 17, 2012

    Ninguém gosta de despedidas. De uma maneira ou de outra, ninguém quer ser sujeito às mesmas, ninguém gosta de as coleccionar, nem sequer acha de bom grado assisti-las. Uns de óculos de sol, outros de olhos enxaguados e ainda outros dispersos na frieza da sua fortaleza, seja como for, ninguém gosta de despedidas. Especialmente se forem despedidas eternas. Existe quem se esconda delas, outros fogem correndo que nem atletas olímpicos e há quem as enfrente. Eu ainda não descobri a solução. Como é suposto reagir-mos à perda? Como é suposto conseguirmos não chorar quando vimos pela última vez alguém que amamos? Como é que é suposto vivermos depois disso? Vamos esquecer, vamos recordar, vamos sorrir? Como é suposto? 
       Tive o meu primeiro funeral aos seis anos de idade e foi a primeira vez que encarei a morte. Acho que naquela altura encarei bastante melhor do que encaro nos dias de hoje. Naquela altura ainda era esperançosa e o meu coração não era nada frio e magoado. Nesse dia, há mais de doze anos atrás, conta a minha mãe vezes e vezes sem conta, quando a vi chorar, agarrei-lhe a mão com as minhas mãos pequeninas e pedi-lhe para não chorar, que ela ia continuar a ver-nos no céu. Céu... é lá que estão as pessoas? Estão-me a ver agora? Enfraqueci com o tempo, julgo. Agora, em funerais, sou apenas capaz de controlar as lágrimas - quando consigo - e de abraçar as pessoas e dizer "vai ficar tudo bem". Mas sabem que mais? É mentira. Nem sempre as coisas ficam melhores. Às vezes elas só pioram. As pessoas não querem despedidas, e nunca se preparam para elas. Afinal, quem se quer preparar para dizer adeus?
       Existe palavra que doa mais que um adeus? Venham todos os insultos do mundo, que garanto-vos que nada me magoa mais, do que alguém que se encontra bem vivo, a dizer-me adeus. Porque não há nada mais doloroso do que ver alguém a matar-nos da sua vida. Ainda que existam pessoas que são como ondas, vão e vêm, o adeus não deve ser pronunciado. Devíamos ficar sempre pelo até já. Pelo menos não dói tanto, pelo menos traz-no esperança. E em confissão vos digo, que existem certas pessoas, que já não voltam, há qual eu ainda não disse adeus. Pessoas que ainda tenho esperança que apareçam de vez em quando, para matar a saudade, para dizer "eu ainda estou aqui", para manter o meu coração deserto delas aquecido. Nem que seja em sonhos, haverá sempre esperança. Haverá sempre um gosto de ti a ser pronunciado na penumbra da noite. Esta é a minha maneira de encarar as despedidas, com lágrimas, com abraços, e com a esperança de nunca realmente haver um adeus. O meu problema, claro está, encontra-se depois da despedida, no prosseguir com a vida. Ainda não o sei fazer, e pergunto-me se algum dia saberei, se algum dia estes vazios se preencheram, ou se o meu coração para além de ter partes desertas, também vai parecer para sempre uma bola de queijo suíço.

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5 comentários

  1. Ninguém gosta de despedidas, ninguém mesmo :/

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  2. Despedidas é algo que nunca deveria ter de existir. Temos a plena Consciência que nada é infinito e que nada dura para sempre. Pensando nesse facto deveria-mos estar mentalizados para suportar o sentimento de afastamento ou despedida quando este é necessário!

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  3. "Agora, em funerais, sou apenas capaz de controlar as lágrimas - quando consigo - e de abraçar as pessoas e dizer "vai ficar tudo bem"."

    já eu, sou apenas capaz de controlar as lágrimas (apenas algumas vezes) e abraçar as pessoas, muitas vezes. mas dizer? nada. fico-me por aí. e elas mereciam palavras, não mereciam? mas é raro, tão raro eu conseguir dizer o que quer que seja... é egoismo?

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    1. Na minha opinião, de egoísmo não tem nada. Claro que mereciam palavras, mas a pergunta é: será que iria adiantar? Em momentos como esses, e falo por mim, as únicas coisas que me fazem sentir melhor são observar quem me rodeia e apoia com um abraço apertado :) acredita, abraçar sem falar, de egoísmo não tem nada!

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    2. Querida Mariana,
      já sigo o teu blog há muito tempo, já li textos dos mais bonitos que tens para oferecer, e que sei que foram elaborados com todo o coração, mas identifiquei-me com este em especial; tenho-te a dizer que está fantástico :) não só as comparações e a estrutura, muito para além disso! A forma como soubeste ler, não só o meu, mas o coração de muita gente em situações de enorme tristeza, em situações de "adeus", é de louvar :)

      A melhor frase, ou a que mais me disse algo, no texto foi esta: "Mas sabem que mais? É mentira. Nem sempre as coisas ficam melhores. Às vezes elas só pioram. As pessoas não querem despedidas, e nunca se preparam para elas. Afinal, quem se quer preparar para dizer adeus?"

      Um beijinho grande e parabéns :)

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