Quem nos mandou deixar de sentir?

By Mariana Neves - setembro 01, 2015

Enquanto defendermos o melhor do mundo, todo o mal nos vai acontecer. Enquanto acreditarmos que existem sorrisos verdadeiramente sinceros e abraços onde os corações se tocam, vamos magoar-nos. Enquanto acharmos que por detrás de uma porta de ódio está uma casa de amor, viveremos numa cidade deserta. Esperar pelo melhor, viver pelo melhor, é a maior extinção do planeta onde vivemos. Estamos proibidos de pensar assim. Porque se assim for, somos crianças, nunca fomos magoados e o mundo não passa de uma utopia.
Mas será mesmo? Porquê, pergunto-me, a partir de uma certa idade nos violam os sonhos e espancam as asas? Porque é que somos proibidos de sonhar? Porque não pudemos viver com a cabeça preenchida de sonhos em vez de preocupações mesquinhas? Porque é que, enquanto o tempo passa, somos bombardeados com oposições ao nosso olhar, como se um momento para o outro, as pessoas deixassem de sentir o brilho que ele emana? Aliás, como se de um momento para o outro as pessoas deixassem de sentir. Porque somos condenados em vidas fechados em nós mesmos, em noites adormecidas nos nossos próprios braços (mesmo que ao nosso lado esteja um corpo para nos aquecer)? Porque crescemos vivendo com o coração mutilado e com défices de esperança e de vontade de mudar?
Às vezes, admito, não quero crescer mais. Não quero pertencer a um mundo, tão cruel, que diz que a magia é pura história e que um beijo não passa de um ato físico. Não, assim não quero existir. Quero um mundo onde a magia esteja em cada chá partilhado, em cada noite de chuva a bater na janela e nos sussurros que o vento emana com a brisa que cheira a pós de fada.  Quero existir num mundo em que um beijo é uma troca de palavras, de corpos, de energias. Em que um beijo, seja tão mais do que um beijo, mas também um compromisso para o momento.  Ai, e quem nesta vida não tem falta de beijos? De comprometer-mo-nos com o agora, com este momento, este segundo, este latejo de coração. Não amanhã, não o “a-seguir-tenho-que-ir-fazer-uma-coisa-qualquer”. Agora. Já. O momento que vivemos.
Quero existir num mundo em que se vive, com sonhos, quedas e disparates sem julgamentos. Em que haja tempo para saudar o sol e sentir o vento. Em que se possa libertar o mar que há em nós sem duvidar se o que nos ampara é uma pedra ou um crocodilo. Quero um mundo onde se confie: na mão amiga, num segredo que não se espalha, num julgamento sem ressentimento. Na mudança e no optimismo. Quero um mundo em que se confie num ser humano. E não nestes seres, que somos, onde a humanidade é tão rara e a imunidade ao sentimento é cada vez maior.
Sei que enquanto fizer parte desta espécie humana (dos que ainda o são) todo o mal me vai acontecer. Porque neste caminho que percorro, sou cada vez mais solitária. Cada vez menos encontro quem compreenda estes desabafos que escrevo aos céus. Cada vez aqueles que, como eu, transparecem a alma e caminham com um sorriso na cara e o coração nas mãos. Enquanto desafiar as leis desta desumanidade e resistir a este ambiente tão tóxico, apático e descrente que nos rodeia, irei falhar segundo quem me observa. Vou perder talvez todo o discernimento por continuar a acreditar numa realidade que para a maior parte das pessoas já é um conto de fadas. Sei-o bem. Mas no final, o que importa, mesmo que todo o mal me aconteça e afinal tudo aquilo que me suporte seja um bando de crocodilos (o que duvido – haja optimismo!), mesmo que fique cheia de cicatrizes, nunca desistirei de mim. Não desistir em continuar a abraçar as pessoas de olhos fechados, para os corações falharem e lhes dizer: psiu, ainda há esperança, enquanto estivermos juntos nem todo o mal do mundo nos pode acontecer.

  • Share:

You Might Also Like

3 comentários

  1. nem imaginas como me fez bem ler isto, como me li a mim mesma em cada palavra. é tanto, tanto, tanto isto, meu bem <3

    ResponderEliminar
  2. Após ler o teu belo e sentido texto, o que posso dizer é que compreendo o que dizes e sinto muitas vezes o que sentes. Ainda há pouco tive um desabafo que vai de encontro ao teu. Por isso não estás sozinha, eu acompanho-te nesses sentimentos.
    Beijinhos e continua a acreditar na magia (pois ela só existe se acreditarmos nela) e a dar beijos e abraços sentidos, pois sem eles não encontramos o amor (mesmo que tenhamos que errar um pouco).

    ResponderEliminar