Sputnik, meu amor.

By Mariana Neves - outubro 05, 2015

Durante muito tempo a leitura (em conjunto com a escrita) foi o meu maior escape. A minha mãe conta-me que ainda eu não sabia ler e já inventava as histórias que fingia ler nos livros. A verdade, é que os livros sempre foram a minha maior companhia e refúgio. Durante um grande período da minha vida li como quem consumia oxigénio. E nunca houve nada que me fizesse parar. Mas a verdade é que o fiz. Desde que comecei a trabalhar, troquei a leitura pela novela. Cliché e errado, devia eu saber. A novela terminou e eu jurei que tão cedo não ia voltar a perder tempo com qualquer programa desse género. E foi com essa promessa e surgiu a oportunidade de me entregar novamente ao "meu amor".

Noutro dia estava a pensar quais os motivos válidos que me fizeram afastar de algo que me dá tanto prazer. Não os encontrei. Creio que a leitura é como conduzir um carro que sobe por um plano inclinado. Se paramos, custa mais voltar a arrancar (pelo menos para mim que não sou grande fã do ponto de embraiagem). Com a leitura, desconfio, passa-se exactamente o mesmo - e provavelmente não será só com a leitura - parar, de forma quase permanente, é quase sempre a morte do artista. Custa a voltar, a recriar os hábitos. Mesmo que seja por uma coisa tão boa quanto é a entrega ao doce prazer da leitura


Voltei a ler, sem olhos cansados e bocejos pelo meio, o livro do Haruki Murakami. "Sputnik, meu amor". Já tinha ouvido falar deste escritor, mas foi numa noite em Tavira que me ofereceram este livro. Durante uma semana foi a companhia silenciosa, misteriosa e aconchegante dos meus pequenos-almoços, finais de tarde e noites. Não parei de ler até chegar ao fim. Só a ideia de voltar a desfolhá-lo fazia com que o meu coração palpita-se. Não sei se era das saudades que eu tinha de me entregar a um livro ou se da forma como realmente fiquei incrivelmente entregue aquela história. Às descrições fenomenais, às frases que permaneceram na minha memória e aos cheiros e paisagens que quase consegui viver. Sei que este livro foi a minha primeira mudança num plano inclinado que não quero parar. Na página final, desejei que o livro não acabasse. Relatei a história do livro a quem não conhecia e a quem conhecia falei sobre a história, das coisas que havia para discutir, para descobrir (a escrita nunca é uma arte directa, há sempre segredos a descobrir). Dizem que os grandes caminhos começam com um primeiro passo. O meu primeiro passo, foi extremamente bom e recomenda-se.

***


"Foi um amor intenso como um tornado abstendo-se sobre uma vasta planície -, capaz de tudo arrasar à sua passagem, atirando com todas as coisas ao ar no seu turbilhão, fazendo-as em pequenos pedaços, esmagando-as por completo. Com uma violência que nem por um momento dava sinal de abrandar, o tornado superou através dos oceanos, arrasando sem misericórdia o templo de Angkor Vat, reduzindo a cinzas a selva indiana, tigres e tudo, para depois, em pleno deserto pérsico, dar lugar a uma tempestade capaz de sepultar sob uma mar de área toda uma exótica cidade fortificada. Em suma, um amor de proporções verdadeiramente momentais."

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4 comentários

  1. Olá Mariana!
    É sempre bom voltar aonde fomos felizes, e isso adapta-se aos bons hábitos também.
    Ler é um dos meus grandes prazeres, e é super normal termos alturas em que lemos mais que outras.
    Já li esse livro e como te disse no Instagram, gostei muito da escrita, já o final deixou-me um pouco a desejar.
    Mas sem dúvida que fiquei com vontade de ler mais livros desse autor.
    Beijinho grande e boas leituras.

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  2. Olá Mariana!!
    Eu regressei agora às leituras de livros de ficção, que tinha deixado um pouco de lado nos últimos anos. Tinha-me esquecido como um simples livro me fazia tão bem. Adoro imaginar tudo na minha cabeça..."fazer o filme todo" :)
    Ainda não li nada desse autor mas está na minha lista de livros a ler!
    Boas leituras :)
    Beijinho grande!!

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  3. Já li também, há uns bons tempos atrás. E mantenho a mesma opinião que tu, um livro que nos capta até ao fim e que depois ainda nos deixa balanceado nele.
    Quanto às paragens de certa forma partilho da mesma opinião. É preciso é haver o "arranque" depois...

    Um beijinho sempre grande

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  4. Nunca li este livro, nem nunca tinha ouvido falar dele, mas parece-me ser o tipo que me agrada, quero pesquisar um pouco mais sobre ele, mas perante o que já fui ver assim que vi o livro que estavas a falar agradou-me.
    Acho que ler é um pouco como andar de bicicleta, nunca se desaprende, nunca perdemos o amor.
    Maria Crescida
    Maria Sem Limites

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