A saudade é uma nuvem que nunca se vai embora.

By Mariana Neves - abril 08, 2019


Hoje deparei-me com uma fotografia tua. Estavas a receber uma prenda e rias-te com aquele teu jeito envergonhado. Ai pai, nunca me vou esquecer dessa tua expressão. Ficavas sempre assim quando alguém te elogiava, nunca sabias para onde te virar. Suponho que seja por isso que nunca leste as cartas que te escrevi à minha frente. Agradecias e sorrias como só tu sabias sorrir. Às vezes, posso jurar, ainda te oiço. Nessas vezes, procuro-te. Tenho tantas saudades de te ouvir. Juraria que neste momento só o som da tua voz já me faria a pessoa mais feliz do mundo. O calor da voz do pai - o meu pai. 

Escrevo enquanto faço favas para o jantar. Vou jantar sozinha. E como acontecia sempre que nós os dois jantávamos sozinhos, resolvi fazer o nosso pitéu. Favas com vinho branco. Estou a fazer a mesma quantidade como se cá estivesses. "Ainda" não consigo imaginar-te ausente. Na verdade estás sempre presente. Há sempre algo que me lembra de ti (e mesmo que não houvesse lembrar-me-ia sempre). Sinto a tua falta mal acordo - tu, o meu despertador favorito. Sinto a tua falta em todos os almoços, todos os reencontros, todas as lágrimas que não amparas, todos os sorrisos que não assistes. 

Acabou agora a box de vinho branco que cá deixaste. Meio ano depois e só agora tive coragem de beber a última gota. Por muito que tente, há tanta coisa que deixa de ter significado sem ti. Bebo martinis, oiço as tuas músicas, mas é tudo tão vazio sem ti. Sinto-me perdida. E escrever isso é tão pouco para a realidade que vivo. A saudade é uma nuvem que nunca se vai embora e que me acompanha. Há dias em que as minhas lágrimas, e a recordação do teu sorriso fazem um arco-irís no meu coração. Mas, verdade seja dita: esses dias são raros. Normalmente quem ganha é a saudade que me persegue.

Mas continuo a tentar fazer mais arco-irís nesta nuvem de saudade que é a minha vida.

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